07/03/2007 Nelson Alves
Susana Montenegro foi uma das “pioneiras” do hóquei feminino em Portugal. Natural de Vila Boa do Bispo, foi ali que aprendeu a patinar e a jogar hóquei, pela mão de “Joel”. Fez parte da primeira selecção nacional, que disputou o Europeu Feminino de Genebra, em 1991. Jogou no clube da “terra natal” até 1995, altura em que se mudou para o Porto, onde continuou os estudos.
Nesse ano, juntou-se ao C.H. Carvalhos, que dava nessa altura os primeiros “passos” no hóquei feminino. Jogou com a camisola do Carvalhos até 2002, altura em que deixou o hóquei em patins, por motivos profissionais.
Ao todo, sagrou-se campeã nacional por três vezes (1993, 1997 e 1999); venceu duas Taças (1995 e 1997) e duas supertaças (1995 e 1999). Representou a selecção nacional entre 1991 e 1995.
Mundo Hóquei: A ideia de a entrevistar surgiu como uma antevisão “diferente” ao jogo da última jornada da primeira fase do Campeonato Nacional Feminino, um Carvalhos – Vila Boa do Bispo. Como desconhece as equipas actuais, não lhe peço para antever este encontro, mas… recorda algum episódio marcante ocorrido em jogos entre estes dois clubes, ao longo da sua carreira?
Susana Montenegro: Sim, claro que há momentos inesquecíveis! Recordo-me do primeiro jogo que fiz com a camisola dos Carvalhos em Vila Boa. Para mim, foi muito bom regressar àquele pavilhão. Mas é evidente que nestes jogos muito “familiares”, as emoções vêm muito ao de cima… e a forma como fui recebida não foi aquela que eu estava à espera! Mas foi uma reacção normal. Acho também que mesmo que se mude de clube, não se deixa de gostar das pessoas.
No meu caso, mudei de clube para buscar o que era melhor para mim. Eu era estudante universitária no Porto, e aproveitei os incentivos que o Carvalhos me deu na altura. Além disso, esta foi a primeira “grande” transferência da história do hóquei feminino português, e isso criou alguma rivalidade.
Mundo Hóquei: E essa transferência foi uma novidade no jovem hóquei feminino nacional…
Susana Montenegro: Curiosamente, acho que ter saído de Vila Boa acabou por ajudar não só a mim, mas também ao próprio hóquei feminino. Digo isto porque, se não tivesse saído de lá – e agora estamos a fazer futurologia ou algo do género – provavelmente não teriam acontecido muitas coisas boas… Se aquela equipa do Vila Boa se mantivesse, se em Vila Boa houvesse universidade e nós não tivéssemos saído, nós seríamos aquilo que a Nortecoope é agora: seríamos muito melhores do que todas as outras! O Joel ensinou-nos os primeiros passos, e “criou” as melhores jogadoras da altura. Com a minha saída e a saída de outras atletas, criou-se um novo clube, igualmente forte, o que aumentou a competitividade e, portanto, melhorou o próprio hóquei! Depois, surgiram as transferências, e o “profissionalismo”. O desporto é mesmo assim, e há que arranjar meios para tornar o hóquei mais competitivo, e na altura foi assim que aconteceu. Talvez o hóquei esteja um pouco em baixo, porque há falta de competitividade…

Foto: Vila Boa do Bispo em 1994
Mundo Hóquei: Falou de “profissionalismo”. De uma forma geral, acha que o “profissionalismo” seria bom para o desenvolvimento e divulgação do hóquei feminino?
Susana Montenegro: Acho que sim, como em todas as modalidades…
Mundo Hóquei: Mesmo que houvessem apenas duas ou três equipas mais fortes, e o resto “girasse” tudo em seu redor?
Susana Montenegro: Nesse aspecto, o competitivo, isso não seria bom. Mas entenda-se o “profissionalismo” como a fase final de um desenvolvimento. Mesmo na minha altura, não estávamos sequer perto de haver as mínimas condições para o surgimento do profissionalismo. Isso surgiu porque houve um “foco” de investimento que se criou num sítio, e isso veio trazer algo completamente diferente do que havia anteriormente. E isso não é “normal”, não é desse profissionalismo, criado “à força” de que estou a falar!
Falo de um profissionalismo que surge ao fim de duas ou três décadas, numa modalidade completamente desenvolvida, com bases sustentáveis e com elevado número de atletas, de onde possa surgir uma “selecção natural” das melhores, as que poderiam tornar-se profissionais. Criar duas ou três equipas “profissionais” para jogarem umas contra as outras, enquanto o empresário tem dinheiro? Não duvido que esse investimento deve ter sido fruto de uma grande paixão pelo hóquei feminino. Mas isso desenvolveu a modalidade? É uma questão que deixo em aberto…
Mundo Hóquei: Como foi vestir a camisola da selecção nacional nos primeiros tempos de hóquei feminino?
Susana Montenegro: Nos primeiros tempos, nós realmente tínhamos pouco jeito para o hóquei… Na altura, era muita “garra” e “força”; Nós não éramos tecnicamente muito evoluídas, pois tínhamos pouco tempo de hóquei. Nos mesmos últimos tempos como jogadora – já fora da selecção – a diferença para aqueles primeiros tempos era enormíssima! Já haviam bastantes jogadoras com elevado nível técnico, que nada tinham a haver com aquela primeira selecção nacional, que foi à Suiça, e onde nós “dávamos” o corpo à bola e depois íamos a correr em direcção à baliza adversária…

Foto: Selecção Nacional Feminina 1994
Mundo Hóquei: Portugal já venceu vários campeonatos europeus, mas nunca venceu nenhum Campeonato do Mundo. Acha que se algum dia vier a acontecer, as pessoas voltarão a interessar-se pelo hóquei feminino?
Susana Montenegro: Acho que sim. Os títulos ajudam sempre nesse aspecto. Portugal nunca foi campeão do mundo, mas spero que isso aconteça brevemente. Quem sabe, já no próximo Mundial?
Mundo Hóquei: No hóquei feminino, é muito habitual ver as jogadoras abandonarem a carreira desportiva a partir de determinada idade. Pela sua experiência, acha que este facto é uma regra, e nada pode alterar este “destino”?
Susana Montenegro: Acho que é pena a maior parte das mulheres deixarem o hóquei prematuramente. Mas da “minha” geração, já todas deixaram de jogar, mas fizeram-no por várias razões, mas quase todas depois dos trinta anos.
Eu deixei de jogar por razões profissionais. Felizmente, tive sempre uma vida profissional bastante intensa, e acabei por optar pelo trabalho. Acho que esse abandono prematuro não “tem de ser”, não é uma regra. Nada impede uma mulher de jogar até aos trinta anos, apenas as opções que tem de tomar ao longo da sua carreira desportiva.
Mundo Hóquei: Um dos problemas do hóquei feminino actual é a grande dificuldade de alguns clubes em renovarem os seus planteis. Sentia esse tipo de problema enquanto jogadora?
Susana Montenegro: Eu e as minhas companheiras de equipa fomos, de facto, pioneiras no hóquei em patins feminino. Vínhamos todas da Patinagem Artística. Encarávamos o hóquei como uma “brincadeira”, mas quando tudo começou a ficar mais sério, e o hóquei feminino começa a andar para a frente, acho que não havia de forma alguma a noção de que não havia renovação, antes pelo contrário! Eu sempre achei que aquilo era o princípio de algo que se iria desenvolver mais tarde.
Nessa altura, foi feito um trabalho excelente ao nível da divulgação do hóquei feminino. Fazíamos vários jogos de demonstração e, em todas as terras onde jogávamos, ficava sempre a vontade de criar novas equipas. Na altura, espalhou-se essa “semente”, e por ocasião dos Jogos Olímpicos, a Federação apoiou-nos bastante e promoveu várias iniciativas de divulgação.
Quando deixei de jogar, o número de equipas era tão grande que se tornou necessária a criação de duas divisões. Se agora só existe uma divisão, é sinal de que o hóquei feminino andou para trás…
Não estou suficientemente informada sobre o hóquei feminino actual, mas nunca pensei que existiriam dificuldades nesse aspecto.
Mundo Hóquei: Nos últimos anos, para além de se terem juntado todas as equipas numa só divisão nacional, deixaram de existir competições oficias para iniciadas femininas. Na sua opinião, de que forma esta situação poderá prejudicar o desenvolvimento do hóquei feminino?
Susana Montenegro: Quando deixei de jogar, eu tinha a ideia que o hóquei feminino estava a progredir… Mas parece que afinal, isso não aconteceu. Se calhar, é necessário que surjam novamente pessoas com muito amor pela modalidade.
É óbvio que sem formação nem competição oficial para as mais novas, o hóquei feminino não evoluirá. Quando comecei a jogar hóquei tinha 13 ou 14 anos, mas tinha a vantagem de ser patinadora, sabia patinar mais ou menos bem. Quando deixei de jogar, havia várias equipas de formação e parecia que o futuro da modalidade estava garantido.
Mundo Hóquei: Em alternativa às equipas de iniciadas femininas, as equipas “mistas” seriam uma boa solução?
Susana Montenegro: Nunca li nada de especifico sobre esse tema, e por isso não sei ao certo até que ponto as equipas mistas são benéficas ou não. Mas pela experiência que tive – uma época a treinar com os juniores do Infante Sagres – essa foi a época mais importante da minha vida enquanto jogadora de hóquei em patins. Ganhei em termos de força muscular e em técnica, e evolui imenso. Em termos competitivos, quanto mais exigirmos de um atleta (seja homem ou mulher), mais ele evolui. Nesse aspecto, acho que esse tipo de experiência é positivo.
Mundo Hóquei: Até que ponto poderá haver discriminação entre rapazes e raparigas nesse tipo de equipas ditas “mistas”?
Susana Montenegro: Penso que será normal se os rapazes jogarem mais tempo que elas. Quem está à frente das equipas quer ganhar os jogos, e para isso terá de pôr os melhores a jogar, e isso não é discriminação sexual. No entanto, se rapazes e raparigas jogarem juntos desde as escolas de formação, surgirão com certeza mulheres que joguem melhor que alguns rapazes – e vão sentá-los no banco! (risos)
Os homens terão sempre mais força física, mas se ambos os sexos tiverem a mesma iniciação, o mesmo número de treinos, e for exigido o mesmo nível de esforço a ambos, haverá raparigas que podem ser excelentes tecnicamente.
Mundo Hóquei: Falávamos de discriminação dentro do rinque. Mas e em relação a “fora” dele? Alguma vez se sentiu discriminada?
Susana Montenegro: Não, graças a Deus, nunca me senti discriminada em nada na minha vida, nem ao nível desportivo, nem ao nível profissional! Claro que quando jogava, no meio do público haviam de vez em quando alguns insultos…

Foto: Susana Montenegro, ainda com as "cores" do Vila Boa do Bispo (1994)
Mundo Hóquei: Acha que se houvessem mais mulheres a treinar equipas de hóquei, a modalidade se desenvolveria melhor?
Susana Montenegro: Acho que não tem nada a haver com os sexos. Tudo depende da formação e competência dos treinadores.
Mundo Hóquei: De vez em quando, volta a “moda” dos patins, até em cidades onde não há clubes de hóquei. Mesmo que se tratem de patins em linha, será que estas “modas” poderão garantir o futuro da modalidade?
Susana Montenegro: Na minha vida profissional, lido com muitas crianças. E todas ainda falam de “patins” como quem fala em “bicicletas”… Mas acho que a “moda” dos patins não possa, por si só, garantir o futuro do hóquei. Mas penso que se os patins continuarem a ser um brinquedo de que as crianças gostam, então poderemos ter a esperança de que há futuro para a patinagem…
Mundo Hóquei: Num país como Portugal, com tradições no Hóquei em patins, é de se estranhar o facto de a modalidade não ser muito falada nos meios de comunicação social?
Susana Montenegro: Acho que esse assunto já não tem a haver apenas com o desporto, mas mais com a sociedade actual, o mundo em que vivemos. Acho que o hóquei em patins sempre foi um desporto de elite – não no aspecto meramente financeiro ou social – mas devido às próprias características do jogo. Nem todos os que querem jogar hóquei, o podem fazer. Não sendo um desporto de massas, não tem grande impacto mediático.
Para mim, a comunicação social tem um poder enorme, pois pode fazer de alguma coisa insignificante, algo importante.
Houve alturas em que a Comunicação Social fez-nos sentir, a nós, jogadoras de hóquei em patins, muito importantes! Com a televisão (TVI) a transmitir jogos em directo, não nos tornámos em nenhumas estrelas. Mas as pessoas sabiam que existia hóquei em patins feminino, havia muita divulgação.
O hóquei nunca foi um desporto de “massas”, mas também não sei porque agora não se dá destaque nenhum ao hóquei. Mas que isso é muito prejudicial para a modalidade, disso não há duvidas…