Mundo
Hóquei (MH): Como surgiu este “plano de desenvolvimento
do hóquei em patins inglês”?
José Carlos Amaral (JCA): Há dez
anos que trabalho com as selecções nacionais de seniores.
No hóquei em patins inglês, comecei a “construir
a casa” pelo telhado. Eu não deveria ter treinado os
seniores, mas sim as camadas jovens, de modo a fazer um trabalho
de fundo. No entanto, nos últimos anos treinei os seniores,
e conseguimos coisas boas, como a vitória no Campeonato do
Mundo “B” e a permanência no Grupo “A”.
Em finais de 2004, quando o actual presidente da federação
inglesa se candidatou ao cargo, foi-me feito o convite para dirigir
todas as selecções nacionais inglesas. Foi feito um
“pano de desenvolvimento”, com o objectivo de, nos próximos
anos, colocar todos os agentes do hóquei em patins inglês
a “remar para o mesmo lado”.
MH: Quais as linhas gerais em que
assenta este plano?
JCA: Em Inglaterra os clubes não têm
treinadores, trabalha-se “em cima dos joelhos”, de forma
muito amadora. Só há dois clubes que todos os anos
conseguem recrutar novos jogadores, que são o Herne Bay United
e o Bury. Os restantes clubes não têm uma boa organização.
Este plano começou a ser posto em prática em Janeiro
de 2005. O objectivo não é só as selecções.
Pretendemos ajudar também os clubes, em termos de organização
e também na criação de um “estilo de
jogo” uniforme.
Uma vez por mês, são organizados os denominados “fins-de-semana
do hóquei inglês”.
No princípio tínhamos uma média de 40 jogadores.
No último fim-de-semana, tivemos 140 jogadores.
O benefício que os jogadores levam para os seus clubes é
muito grande, e com isto conseguimos elevar o nível do hóquei
em patins inglês.
MH: Como são divididos os
jogadores? Apenas pela idade?
JCA: Não, os jogadores são divididos
em função da sua idade e da sua capacidade técnica.
São criados grupos etários, dos 8 aos 38 anos. Os
jogadores também têm um treino de iniciação
e outro de aperfeiçoamento.
MH: Qual a importância destes
“estágios” no estrangeiro?
JCA: Este ano, fizemos vários mini-estágios,
em Portugal e Espanha, além de vários torneios. Temos
o apoio das câmaras de Barcelos e Santa Maria da Feira, em
Portugal, e da Federação Espanhola. Logicamente que
o hóquei em patins inglês só tem a ganhar com
este tipo de intercâmbios. Para já ainda estamos muito
longe dos outros países, mas dentro de alguns anos lutaremos
por uma medalha num campeonato europeu de juvenis, por exemplo.
MH: Como é que a NRHA está
a interagir com as associações regionais?
JCA: O plano de desenvolvimento tem sido feito
de forma faseada. A primeira parte do plano, que sã os primeiros
dois anos, já está efectuada, e foi feita a um nível
nacional. A partir de agora, para além dos dois dias por
mês com treinos nacionais, haverá um dia extra em cada
uma das regiões, para estar mais próximo dos atletas
que não têm hipótese de se deslocar aos locais
dos estágios. Faço o que posso, pois não sou
profissional, mas há clubes onde todos os meses dou treinos.
O hóquei em patins inglês é um meio pequeno,
dividido em três regiões. Há uma região
mais forte, Este, onde vivo e trabalho há cerca de dez anos.
A partir de Janeiro, a minha prioridade serão as regiões
do Norte e o Sul. Vou fazer um maior número de treinos nessas
regiões, pois há um risco real de o hóquei
em patins morrer nessas zonas do país.
MH: Nessas regiões, o “amadorismo”
é mais notório do que no leste?
JCA: Exactamente. Nessas regiões, são
os pais e os amigos que dão os treinos. Alguns deles nem
sequer jogaram hóquei em patins e portanto, não têm
conhecimentos suficientes para efectuar um bom trabalho. No entanto,
é de louvar a sua coragem em tirar os miúdos da rua
e pô-los a treinar num Pavilhão. Mas o hóquei
em patins necessita de ser jogado a um nível mais profissional.
Digo isto muitas vezes em Inglaterra: esta modalidade, apesar de
ser amadora, tem de ser encarada de um modo profissional.
MH: …Ou mesmo que não
seja profissional, pelo menos deve ser encarado “mais a sério”…
JCA: Repare que há muitas maneiras de se
ser profissional. Estes jovens que estão aqui são
amadores, pagaram para estar aqui, mas estão a fazer um trabalho
de modo profissional.
MH: Este “plano de desenvolvimento”
não abrange apenas os jogadores…
JCA: Um dos objectivos do próximo ano será
não só a formação de jogadores, mas
também de treinadores e árbitros. È obvio que
a nossa prioridade são os jogadores, mas até planeamos
ajudar os dirigentes a organizar os seus clubes, ensiná-los
a recrutar mais jovens para o hóquei em patins.
MH: Qual o papel do hóquei
feminino neste plano de desenvolvimento?
JCA: Pretendemos trazer mais raparigas para o hóquei
em patins. Neste momento há apenas 50 jogadoras no país.
No último mundial, tinha apenas 12 jogadoras com qualidade,
e tinha de seleccionar 10. Uma partiu a perna e duas tiveram de
abdicar devido aos estudos… tive de escolher uma outra jogadora
“à última hora”, senão não
tinha dez jogadoras para levar ao Mundial.
Mesmo assim, acho que a Inglaterra esteve bem nesse Mundial.
MH: Quais são os seus objectivos
imediatos, nomeadamente para o próximo ano?
JCA: O grande objectivo para o próximo ano
será o Campeonato Mundial “A”, na Suiça.
É a minha principal aposta para o próximo ano.
Depois vamos ter também o Mundial de Juniores, que é
uma prova importante. Vamos ter um novo grupo de jogadores, vamos
tentar dar-lhes mais experiência, a pensar também nos
próximos europeus da categoria.
Os juvenis ainda estão a ser preparados para o futuro, pensamos
mais no Europeu de Juvenis de 2008.
No feminino, estamos a preparar o próximo campeonato europeu,
mas a pensar no Mundial do ano seguinte. Vamos começar tudo
do zero, vamos apostar numa equipa de sub-18, para ter uma boa equipa
daqui a dois ou três anos.
MH: Por fim, a actualidade do hóquei
inglês. Qual o balanço que faz da participação
do Herne Bay nas competições europeias?
JCA: Penso que fizeram aquilo que tinham a fazer.
Perdeu os dois jogos com o Saint-Omer, uma equipa com jogadores
semi-profissionais. Mas penso que os dois resultados não
são maus, são os resultados normais frente a uma equipa
repleta de jogadores internacionais franceses.
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