17/08/2007 Nelson Alves
Mundo do Hóquei: No hóquei
feminino, o senhor é muito conhecido. Mas a pergunta que
farão os adeptos de hóquei masculino, que não
se interessem pelo feminino, será: quem é Jorge
Lopes?
Jorge Lopes: É uma pergunta complicada! (risos)
Mas... (Jorge Lopes) é uma pessoa que tem uma grande paixão
pelo hóquei em patins. Jogou durante 22 anos, no velhinho
Lima, do Académico do Porto. Depois de terminada a carreira
como jogador, enveredou, também fruto dos estudos universitários
no antigo ISEF do Porto, pela carreira de treinador, e manteve
essa paixão pela modalidade. Treinei o Flor da Mocidade,
o CD Nortecoope - do qual sou um dos fundadores da secção
de hóquei em patins - , o Gulpilhares, a selecção
australiana masculina sénior e a selecção
nacional feminina.
SELECÇÃO DA
AUSTRÁLIA
MH: Em que ponto está o seu trabalho
com a Selecção Australiana?
JL: Eu tive uma experiência que não foi
muito gratificante para mim, com a selecção australiana
masculina sénior no Mundial “B” do Uruguai,
uma vez que a preparação foi toda feita sem a minha
presença. Eu limitei-me a conhecer os jogadores quase na
véspera do Campeonato, foi um grande risco que corri e
jurei que nunca mais voltava a fazer a mesma coisa, pois não
é esta a minha forma de estar no treino e na alta competição.
Neste momento, o meu trabalho com a Federação Australiana
limita-se à coordenação do próximo
projecto, que é planificar, organizar e realizar o próximo
estágio da selecção australiana de juvenis,
que se deve realizar, presumo eu, em Janeiro de 2008.
HÓQUEI FEMININO: O
PASSADO....
MH: Foi com o Sr. Prof. que a Nortecoope
começou a lançar as bases daquilo que é agora?
JL: Eu penso que sim. E foi muito gratificante. Foi uma
experiência desportiva e humana bastante enriquecedora a
todos os níveis, porque com a solidariedade e união
que existia na altura, e com o trabalho de toda a gente, conseguimos
criar uma escola de hóquei, conseguimos criar uma das melhores
equipas femininas da altura e da actualidade. Na altura, tínhamos
um rinque ao ar livre para trabalhar. E como sabe, nessas condições
é complicado treinar aqui no norte, especialmente no Inverno.
Lembro-me de muitas vezes termos de tirar a água do rinque,
porque tinha chovido, e todas as equipas participavam nessa tarefa,
pois todos queriam treinar: era preciso treinar para atingir determinados
resultados!
Foi com esse esforço e esse espirito que as coisas se foram
cimentando e consolidando. Chegamos, nessa altura, a ir disputar
uma Taça Intercontinental ao Brasil, sem dinheiro nenhum
– na altura não tínhamos dinheiro para embarcar
nessa aventura! -, mas conseguimos arranjar, com alguns patrocínios,
com o apoio da Câmara, etc...
Foram projectos muito interessantes, que levaram ao crescimento
deste clube e que o levou a ser agora um dos expoentes máximos
do hóquei em patins feminino em Portugal.
MH: Na selecção feminina,
entrou com o “pé esquerdo”, em 1995, mas saiu
com três títulos de campeão europeu...
JL: É verdade (risos)! Entramos com o pé
esquerdo em termos de eficácia. O Europeu de Oviedo mostrou-me
que era necessário renovar a equipa, havia muitos vícios
instalados, havia erros que as atletas cometiam sistematicamente,
e cheguei à conclusão que a renovação
que tinha sido feita na selecção nacional não
chegava para aquilo que eu queria.
A partir de 1996, com muito trabalho e com uma base forte, um
misto de jogadoras experientes e outras muito jovens, que tinham
uma certa irreverência, começamos a ter melhores
resultados.
Devo dizer-lhe que, nessa altura, a selecção feminina
tinha cerca de 45 dias de preparação, e nos primeiros
estágios tínhamos três treinos por dia. Foi
uma carga de trabalhos para toda a gente, mas foi também
uma mudança de mentalidades. Algumas atletas treinavam
mais num dia do que durante uma semana nos seus clubes. Houve,
por parte da Federação, a percepção
de que as coisas tinham de ser alteradas; Por outro lado, a Federação
deu-me todas as condições que eu exigi, e por isso,
tudo corria de feição.
1996, com o Mundial de Sertãozinho, no Brasil, foi o ano
de “viragem”: a equipa apareceu bem, ainda um pouco
longe das equipas de topo mundial, casos de Espanha e Itália,
e conseguimos a nossa primeira medalha a nível internacional.
Isso deu-nos vontade de fazer mais e melhor.
Em 1997, usamos uma arma, que foi o “scouting”: observação
e análise detalhada das equipas adversárias. No
Europeu de São João da madeira, tínhamos
uma equipa de estatística, liderada pelo Prof. António
Gaspar, que fez um trabalho espectacular.
No fim, com o trabalho de todos, conseguimos ganhar esse campeonato,
e alcançar uma coisa que, para mim, foi mais importante
do que o título em si: é que, a partir de 1997,
quando a selecção entrava num campeonato, quer do
mundo, quer da Europa, era considerada uma candidata ao título.
MH: Pode descrever os métodos de
trabalho da selecção feminina, há dez anos
atrás?
JL: Fundamentalmente, elevamos dois “elementos
sagrados” do treino desportivo. Aumentamos significativamente
o volume de treinos, ou seja, as atletas passaram a treinar mais
horas; Aumentamos também a intensidade, pois colocamos
esse elemento ao nível da competição. Estes
dois factores traduziram-se, no campeonato, numa condição
física invejável, e a selecção estava
preparada para uma semana de competição intensa.
Como eu nunca estive à espera dos clubes, esse trabalho
era todo feito e consolidado na selecção: havia,
nos três primeiros estágios, uma grande componente
física: trabalhávamos às 7 da manhã,
às 11 e às 17 horas, sete dias por semana.
Outro aspecto importante é que os treinos reflectiam, exactamente,
as dificuldades que nós encontrávamos no decorrer
dos jogos – treino que íamos realizando. O treino
era, fundamentalmente, um treino táctico, individual e
colectivo, e era aí que se trabalhavam todas as estratégias
que iriam ser utilizadas durante os campeonatos da Europa ou do
Mundo.
Toda a gente sabia qual a estratégia a usar, conforme a
equipa adversária: o tipo de defesa (à zona ou individual),
as características físicas, a qualidade da guarda-redes
adversária, etc...
A observação das equipas adversárias, como
referi, também foi muito importante, que depois me permitia
adaptar a selecção, de modo a tirarmos o maior proveito
dos conhecimentos que tínhamos.
MH: Depois de orientar a Nortecoope e a
Selecção Feminina, passou duas épocas no
Gulpilhares. Que balanço faz dessa experiência?
JL: Foi uma experiência positiva, apesar de não
termos alcançado os resultados que desejaríamos.
Relativamente à primeira época, gostaria de relembrar
que não fomos campeões nacionais por um golo! Fomos
finalistas da Taça de Portugal e perdemos nos “penalties”,
e ganhamos a Supertaça, no inicio da época. Ganhamos
a primeira competição para o Gulpilhares.
Na segunda época, as coisas estavam perfeitamente formatadas,
com uma equipa baseada na época anterior, e com o reforço
de duas jogadoras espanholas. A equipa estava bem constituída,
os projectos eram interessantes. No início, o trabalho
estava a correr muito bem, chegamos a disputar um Torneio Internacional,
em Paris, onde estiveram presentes as melhores equipas europeias,
e onde terminamos no primeiro lugar.
MH: Porque é que o projecto não
continuou?
JL: As coisas não resultaram, porque o acordo
que equipa técnica e atletas tinham com o clube, não
conseguiu ser cumprido pelo Gulpilhares. Houve uma quebra nos
patrocínios que o clube tinha, e pelo que sei, a Câmara
de Gaia não ajudou financeiramente o clube. Portanto, aquilo
que tinha sido prometido, e especialmente às jogadoras
de fora, deixou de ser cumprido, e por isso, o espirito manteve-se,
mas a disponibilidade das atletas e do técnico para trabalhar
era cada vez menor.
Como é lógico, treinamos sempre com o mesmo espirito,
mas tivemos de reduzir significativamente o tempo que passávamos
a treinar, e isto reflectiu-se negativamente na competição.
Apesar de tudo, acho que o terceiro lugar no campeonato foi muito
bom. Fomos finalistas da Taça de Portugal, estivemos sempre
na “linha da frente”.
MH: Em termos desportivos, um ano depois
da extinção da equipa do Gulpilhares, já
se pode fazer um balanço de tudo o que o hóquei
feminino português perdeu?
JL: Eu acho que (o hóquei feminino) perdeu uma
grande equipa. O Gulpilhares, tal como o Portosantense, seriam
as duas equipas de “top”, que estariam sempre na luta
pelos primeiros lugares, e dariam alguma “luta” ao
Centro Desportivo Nortecoope e à Fundação
Nortecoope. Em termos de competitividade, acho que se perdeu muito
no hóquei feminino. O calendário desportivo tornou-se,
por via disso, muito mais pobre.
Com a extinção da equipa, muitas atletas deixaram
de jogar. Por outro lado, algumas jogadoras do Gulpilhares foram
reforçar a equipa que já era, teoricamente, a mais
forte do campeonato nacional, o que desequilibrou ainda mais as
coisas.
As estrangeiras (Christina Klein e Marta Soler) foram para Espanha.
A outra jogadora espanhola (Emma Corominas) saiu do clube mal
o Gulpilhares deixou de cumprir o acordo que tinha com ela...
toda a gente percebeu, na altura, qual era a situação.
HÓQUEI FEMININO:
ALCORCÓN
MH: Como antevê o próximo Europeu
Feminino, que vai ser disputado em Alcorcón, na Espanha,
ao nível de organização, competitividade,
mediatismo, etc...?
JL: Para começar, é uma região que,
em termos de hóquei, não conheço muito bem...
(risos). Sei que os espanhóis, em tudo o que se comprometem
a fazer, fazem-no com muito profissionalismo. Tive a oportunidade
de assistir ao vivo, em Reus, a uma organização
espectacular, e mesmo em Oviedo, no Europeu feminino, não
falhou nada. Nesse aspecto, não estou nada preocupado.
Em termos desportivos, penso que há três selecções
que, entre si, podem discutir o título de campeão
da Europa. A actual detentora do título, a França,
não sei como se irá apresentar. Li
uma entrevista do treinador principal ao vosso site,
sei que está muito preocupado com o tempo que tem para
preparar a sua equipa, mas eu sei que o Dan vai fazer tudo, e
mais alguma coisa, para manter o título na posse da selecção
francesa.
A selecção espanhola é sempre uma candidata
ao título. Sei que têm trabalhado muito, fizeram
uma grande renovação da sua equipa, mas as jovens
que apareceram, e por aquilo que tenho lido, são atletas
de grande qualidade, que vêm da selecção mais
jovem. Além disso, jogam em casa.
A selecção portuguesa... continua a ser, também,
uma candidata ao título. E era bom que este título
viesse para Portugal, viria dinamizar, com certeza, o hóquei
feminino em Portugal, e seria uma “pedra no charco”,
pois infelizmente nenhuma selecção nacional tem
ganho títulos... Seria motivo de orgulho para todos os
portugueses, que só têm tido desilusões atrás
de desilusões, e não só no hóquei
feminino, estou também a falar do último Campeonato
do Mundo, que se disputou na Suíça.
AINDA MONTREUX...
MH: Apesar de ser um homem “do”
hóquei feminino, deve ter sido uma desilusão a classificação
de Portugal no último Mundial Masculino...
JL: Não estávamos habituados a uma classificação
tão surpreendente, pela negativa. Eu vi os jogos todos,
tive realmente a percepção de que a selecção
não entrou bem no campeonato. Não duvido da competência
do Paulo Baptista, sei que é um grande treinador de hóquei
em patins, e é um dos mais conceituados e conhecedores
da modalidade.
Não duvido do empenho e do esforço dos jogadores,
e da dedicação que tiveram àquela selecção
nacional, mas o que é certo é que a mescla daqueles
jogadores não resultou.
Era difícil a interacção entre os jogadores,
por uma razão muito simples: eram jogadores de escolas
completamente diferentes. Uns, formados pelo Paulo Baptista no
Paço de Arcos, habituados a uma estratégia bem delineada,
onde há muito pouca criatividade.
E depois havia outros jogadores, como o Reinaldo Ventura, por
exemplo, que tem na criatividade uma característica própria
do “seu” jogo! Esta falta de entrosamento entre estas
duas escolas, ou filosofias de jogo, não poderia dar resultado.
MH: Concorda ou discorda da ideia de que
esta péssima classificação reflecte a realidade
do hóquei português actual?
JL: Não, não reflecte nada! Acho que foi
um equívoco! Por um lado, foi mau, pois não estamos
habituados a ver a Selecção tão mal classificada,
e a ver tão má qualidade de hóquei na selecção
portuguesa. Mas, por outro lado, isto tem um aspecto positivo:
levou as pessoas a pensar nos caminhos que o hóquei em
patins português tem de traçar. Está a ficar
tarde, estamos a começar a perder adeptos, patrocínios,
etc... Corremos o risco de os portugueses começarem a esquecer
esta modalidade, que, gostaria de relembrar, foi a modalidade
que mais títulos europeus e mundiais trouxe para Portugal!
FUTURO?
MH: Para quando, o regresso ao “activo”?
JL: Não deve ser tão cedo... Agora tenho
outros projectos: escrever qualquer coisa, e fazer um mestrado
na área do Alto Rendimento Desportivo: são estes
os meus projectos imediatos. Este mestrado, em Madrid, ocupa-me
muito tempo, incluindo os fins-de-semana... por isso, em princípio,
durante os próximos dois anos, não vou regressar.
A não ser que me apareça um projecto bastante interessante...
e quando falo de um projecto bastante interessante, falo num projecto
para ganhar. É que, para fazer desporto de “manutenção”,
há com certeza outros técnicos interessados em fazer
esse tipo de desporto, mas eu não tenho essa perspectiva.
Gosto de competir para ganhar, e para ganhar, tenho de ter determinadas
condições, quer humanas, quer estruturais. Se aparecer
um projecto nesse sentido... terei de pensar duas vezes! (risos)
Senão, nestes tempos mais próximos, vai ser complicado
ver-me por aí, a orientar uma equipa...