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Entrevista a...
Jorge Lopes

Portugal vai disputar brevemente o Campeonato da Europa de Seniores Femininos, em Alcorcón, Espanha. Vai ser difícil conquistar o título, mas nada é impossível, quando se tem jogadoras como as portuguesas.

Há dez anos atrás, Portugal entrava pela primeira vez num Campeonato Europeu para ganhar.
E ganhou: num Pavilhão Municipal das Travessas ao rubro, Portugal alcançou o primeiro de três títulos europeus consecutivos.
Foi este o motivo que nos levou a entrevistar o seleccionador nacional de então, o Prof. Jorge Lopes.

Uma conversa pouco formal, numa tarde de calor, na cidade da Maia.

17/08/2007 Nelson Alves

Mundo do Hóquei: No hóquei feminino, o senhor é muito conhecido. Mas a pergunta que farão os adeptos de hóquei masculino, que não se interessem pelo feminino, será: quem é Jorge Lopes?
Jorge Lopes:
É uma pergunta complicada! (risos) Mas... (Jorge Lopes) é uma pessoa que tem uma grande paixão pelo hóquei em patins. Jogou durante 22 anos, no velhinho Lima, do Académico do Porto. Depois de terminada a carreira como jogador, enveredou, também fruto dos estudos universitários no antigo ISEF do Porto, pela carreira de treinador, e manteve essa paixão pela modalidade. Treinei o Flor da Mocidade, o CD Nortecoope - do qual sou um dos fundadores da secção de hóquei em patins - , o Gulpilhares, a selecção australiana masculina sénior e a selecção nacional feminina.

SELECÇÃO DA AUSTRÁLIA

MH: Em que ponto está o seu trabalho com a Selecção Australiana?
JL:
Eu tive uma experiência que não foi muito gratificante para mim, com a selecção australiana masculina sénior no Mundial “B” do Uruguai, uma vez que a preparação foi toda feita sem a minha presença. Eu limitei-me a conhecer os jogadores quase na véspera do Campeonato, foi um grande risco que corri e jurei que nunca mais voltava a fazer a mesma coisa, pois não é esta a minha forma de estar no treino e na alta competição.
Neste momento, o meu trabalho com a Federação Australiana limita-se à coordenação do próximo projecto, que é planificar, organizar e realizar o próximo estágio da selecção australiana de juvenis, que se deve realizar, presumo eu, em Janeiro de 2008.

HÓQUEI FEMININO: O PASSADO....

MH: Foi com o Sr. Prof. que a Nortecoope começou a lançar as bases daquilo que é agora?
JL:
Eu penso que sim. E foi muito gratificante. Foi uma experiência desportiva e humana bastante enriquecedora a todos os níveis, porque com a solidariedade e união que existia na altura, e com o trabalho de toda a gente, conseguimos criar uma escola de hóquei, conseguimos criar uma das melhores equipas femininas da altura e da actualidade. Na altura, tínhamos um rinque ao ar livre para trabalhar. E como sabe, nessas condições é complicado treinar aqui no norte, especialmente no Inverno. Lembro-me de muitas vezes termos de tirar a água do rinque, porque tinha chovido, e todas as equipas participavam nessa tarefa, pois todos queriam treinar: era preciso treinar para atingir determinados resultados!
Foi com esse esforço e esse espirito que as coisas se foram cimentando e consolidando. Chegamos, nessa altura, a ir disputar uma Taça Intercontinental ao Brasil, sem dinheiro nenhum – na altura não tínhamos dinheiro para embarcar nessa aventura! -, mas conseguimos arranjar, com alguns patrocínios, com o apoio da Câmara, etc...
Foram projectos muito interessantes, que levaram ao crescimento deste clube e que o levou a ser agora um dos expoentes máximos do hóquei em patins feminino em Portugal.

MH: Na selecção feminina, entrou com o “pé esquerdo”, em 1995, mas saiu com três títulos de campeão europeu...
JL:
É verdade (risos)! Entramos com o pé esquerdo em termos de eficácia. O Europeu de Oviedo mostrou-me que era necessário renovar a equipa, havia muitos vícios instalados, havia erros que as atletas cometiam sistematicamente, e cheguei à conclusão que a renovação que tinha sido feita na selecção nacional não chegava para aquilo que eu queria.
A partir de 1996, com muito trabalho e com uma base forte, um misto de jogadoras experientes e outras muito jovens, que tinham uma certa irreverência, começamos a ter melhores resultados.
Devo dizer-lhe que, nessa altura, a selecção feminina tinha cerca de 45 dias de preparação, e nos primeiros estágios tínhamos três treinos por dia. Foi uma carga de trabalhos para toda a gente, mas foi também uma mudança de mentalidades. Algumas atletas treinavam mais num dia do que durante uma semana nos seus clubes. Houve, por parte da Federação, a percepção de que as coisas tinham de ser alteradas; Por outro lado, a Federação deu-me todas as condições que eu exigi, e por isso, tudo corria de feição.
1996, com o Mundial de Sertãozinho, no Brasil, foi o ano de “viragem”: a equipa apareceu bem, ainda um pouco longe das equipas de topo mundial, casos de Espanha e Itália, e conseguimos a nossa primeira medalha a nível internacional. Isso deu-nos vontade de fazer mais e melhor.
Em 1997, usamos uma arma, que foi o “scouting”: observação e análise detalhada das equipas adversárias. No Europeu de São João da madeira, tínhamos uma equipa de estatística, liderada pelo Prof. António Gaspar, que fez um trabalho espectacular.
No fim, com o trabalho de todos, conseguimos ganhar esse campeonato, e alcançar uma coisa que, para mim, foi mais importante do que o título em si: é que, a partir de 1997, quando a selecção entrava num campeonato, quer do mundo, quer da Europa, era considerada uma candidata ao título.

MH: Pode descrever os métodos de trabalho da selecção feminina, há dez anos atrás?
JL:
Fundamentalmente, elevamos dois “elementos sagrados” do treino desportivo. Aumentamos significativamente o volume de treinos, ou seja, as atletas passaram a treinar mais horas; Aumentamos também a intensidade, pois colocamos esse elemento ao nível da competição. Estes dois factores traduziram-se, no campeonato, numa condição física invejável, e a selecção estava preparada para uma semana de competição intensa.
Como eu nunca estive à espera dos clubes, esse trabalho era todo feito e consolidado na selecção: havia, nos três primeiros estágios, uma grande componente física: trabalhávamos às 7 da manhã, às 11 e às 17 horas, sete dias por semana.
Outro aspecto importante é que os treinos reflectiam, exactamente, as dificuldades que nós encontrávamos no decorrer dos jogos – treino que íamos realizando. O treino era, fundamentalmente, um treino táctico, individual e colectivo, e era aí que se trabalhavam todas as estratégias que iriam ser utilizadas durante os campeonatos da Europa ou do Mundo.
Toda a gente sabia qual a estratégia a usar, conforme a equipa adversária: o tipo de defesa (à zona ou individual), as características físicas, a qualidade da guarda-redes adversária, etc...
A observação das equipas adversárias, como referi, também foi muito importante, que depois me permitia adaptar a selecção, de modo a tirarmos o maior proveito dos conhecimentos que tínhamos.

MH: Depois de orientar a Nortecoope e a Selecção Feminina, passou duas épocas no Gulpilhares. Que balanço faz dessa experiência?
JL:
Foi uma experiência positiva, apesar de não termos alcançado os resultados que desejaríamos.
Relativamente à primeira época, gostaria de relembrar que não fomos campeões nacionais por um golo! Fomos finalistas da Taça de Portugal e perdemos nos “penalties”, e ganhamos a Supertaça, no inicio da época. Ganhamos a primeira competição para o Gulpilhares.
Na segunda época, as coisas estavam perfeitamente formatadas, com uma equipa baseada na época anterior, e com o reforço de duas jogadoras espanholas. A equipa estava bem constituída, os projectos eram interessantes. No início, o trabalho estava a correr muito bem, chegamos a disputar um Torneio Internacional, em Paris, onde estiveram presentes as melhores equipas europeias, e onde terminamos no primeiro lugar.

MH: Porque é que o projecto não continuou?
JL:
As coisas não resultaram, porque o acordo que equipa técnica e atletas tinham com o clube, não conseguiu ser cumprido pelo Gulpilhares. Houve uma quebra nos patrocínios que o clube tinha, e pelo que sei, a Câmara de Gaia não ajudou financeiramente o clube. Portanto, aquilo que tinha sido prometido, e especialmente às jogadoras de fora, deixou de ser cumprido, e por isso, o espirito manteve-se, mas a disponibilidade das atletas e do técnico para trabalhar era cada vez menor.
Como é lógico, treinamos sempre com o mesmo espirito, mas tivemos de reduzir significativamente o tempo que passávamos a treinar, e isto reflectiu-se negativamente na competição.
Apesar de tudo, acho que o terceiro lugar no campeonato foi muito bom. Fomos finalistas da Taça de Portugal, estivemos sempre na “linha da frente”.

MH: Em termos desportivos, um ano depois da extinção da equipa do Gulpilhares, já se pode fazer um balanço de tudo o que o hóquei feminino português perdeu?
JL:
Eu acho que (o hóquei feminino) perdeu uma grande equipa. O Gulpilhares, tal como o Portosantense, seriam as duas equipas de “top”, que estariam sempre na luta pelos primeiros lugares, e dariam alguma “luta” ao Centro Desportivo Nortecoope e à Fundação Nortecoope. Em termos de competitividade, acho que se perdeu muito no hóquei feminino. O calendário desportivo tornou-se, por via disso, muito mais pobre.
Com a extinção da equipa, muitas atletas deixaram de jogar. Por outro lado, algumas jogadoras do Gulpilhares foram reforçar a equipa que já era, teoricamente, a mais forte do campeonato nacional, o que desequilibrou ainda mais as coisas.
As estrangeiras (Christina Klein e Marta Soler) foram para Espanha. A outra jogadora espanhola (Emma Corominas) saiu do clube mal o Gulpilhares deixou de cumprir o acordo que tinha com ela... toda a gente percebeu, na altura, qual era a situação.

HÓQUEI FEMININO: ALCORCÓN

MH: Como antevê o próximo Europeu Feminino, que vai ser disputado em Alcorcón, na Espanha, ao nível de organização, competitividade, mediatismo, etc...?
JL:
Para começar, é uma região que, em termos de hóquei, não conheço muito bem... (risos). Sei que os espanhóis, em tudo o que se comprometem a fazer, fazem-no com muito profissionalismo. Tive a oportunidade de assistir ao vivo, em Reus, a uma organização espectacular, e mesmo em Oviedo, no Europeu feminino, não falhou nada. Nesse aspecto, não estou nada preocupado.
Em termos desportivos, penso que há três selecções que, entre si, podem discutir o título de campeão da Europa. A actual detentora do título, a França, não sei como se irá apresentar. Li uma entrevista do treinador principal ao vosso site, sei que está muito preocupado com o tempo que tem para preparar a sua equipa, mas eu sei que o Dan vai fazer tudo, e mais alguma coisa, para manter o título na posse da selecção francesa.
A selecção espanhola é sempre uma candidata ao título. Sei que têm trabalhado muito, fizeram uma grande renovação da sua equipa, mas as jovens que apareceram, e por aquilo que tenho lido, são atletas de grande qualidade, que vêm da selecção mais jovem. Além disso, jogam em casa.
A selecção portuguesa... continua a ser, também, uma candidata ao título. E era bom que este título viesse para Portugal, viria dinamizar, com certeza, o hóquei feminino em Portugal, e seria uma “pedra no charco”, pois infelizmente nenhuma selecção nacional tem ganho títulos... Seria motivo de orgulho para todos os portugueses, que só têm tido desilusões atrás de desilusões, e não só no hóquei feminino, estou também a falar do último Campeonato do Mundo, que se disputou na Suíça.

AINDA MONTREUX...

MH: Apesar de ser um homem “do” hóquei feminino, deve ter sido uma desilusão a classificação de Portugal no último Mundial Masculino...
JL:
Não estávamos habituados a uma classificação tão surpreendente, pela negativa. Eu vi os jogos todos, tive realmente a percepção de que a selecção não entrou bem no campeonato. Não duvido da competência do Paulo Baptista, sei que é um grande treinador de hóquei em patins, e é um dos mais conceituados e conhecedores da modalidade.
Não duvido do empenho e do esforço dos jogadores, e da dedicação que tiveram àquela selecção nacional, mas o que é certo é que a mescla daqueles jogadores não resultou.
Era difícil a interacção entre os jogadores, por uma razão muito simples: eram jogadores de escolas completamente diferentes. Uns, formados pelo Paulo Baptista no Paço de Arcos, habituados a uma estratégia bem delineada, onde há muito pouca criatividade.
E depois havia outros jogadores, como o Reinaldo Ventura, por exemplo, que tem na criatividade uma característica própria do “seu” jogo! Esta falta de entrosamento entre estas duas escolas, ou filosofias de jogo, não poderia dar resultado.

MH: Concorda ou discorda da ideia de que esta péssima classificação reflecte a realidade do hóquei português actual?
JL:
Não, não reflecte nada! Acho que foi um equívoco! Por um lado, foi mau, pois não estamos habituados a ver a Selecção tão mal classificada, e a ver tão má qualidade de hóquei na selecção portuguesa. Mas, por outro lado, isto tem um aspecto positivo: levou as pessoas a pensar nos caminhos que o hóquei em patins português tem de traçar. Está a ficar tarde, estamos a começar a perder adeptos, patrocínios, etc... Corremos o risco de os portugueses começarem a esquecer esta modalidade, que, gostaria de relembrar, foi a modalidade que mais títulos europeus e mundiais trouxe para Portugal!

FUTURO?

MH: Para quando, o regresso ao “activo”?
JL:
Não deve ser tão cedo... Agora tenho outros projectos: escrever qualquer coisa, e fazer um mestrado na área do Alto Rendimento Desportivo: são estes os meus projectos imediatos. Este mestrado, em Madrid, ocupa-me muito tempo, incluindo os fins-de-semana... por isso, em princípio, durante os próximos dois anos, não vou regressar. A não ser que me apareça um projecto bastante interessante... e quando falo de um projecto bastante interessante, falo num projecto para ganhar. É que, para fazer desporto de “manutenção”, há com certeza outros técnicos interessados em fazer esse tipo de desporto, mas eu não tenho essa perspectiva. Gosto de competir para ganhar, e para ganhar, tenho de ter determinadas condições, quer humanas, quer estruturais. Se aparecer um projecto nesse sentido... terei de pensar duas vezes! (risos) Senão, nestes tempos mais próximos, vai ser complicado ver-me por aí, a orientar uma equipa...

 
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