08/08/2007 Nelson Alves
Mundo do Hóquei: A pergunta que alguns dos visitantes
portugueses do nosso site irão fazer: quem é o Darrel
Pearce?
Darrel Pearce: Em primeiro lugar, eu fui capitão
da selecção inglesa nos últimos quatro anos.
A única razão para eu não ter ido ao Campeonato
do Mundo de Montreux foi porque me lesionei.
Na Federação Inglesa, estou a trabalhar com Carlos
Amaral; Sou o seu “número dois”. Sou o treinador
principal da selecção feminina, e também
ajudo no trabalho com as selecções de sub-13, sub-15
e sub-17. Quando o Carlos não está presente, sou
eu que dirijo os treinos.
Sou também o treinador principal da equipa de seniores
masculinos do Bury Roller Hockey Club, que é, neste momento,
o segundo clube com mais sucesso em Inglaterra... e está
a crescer a cada ano que passa!
Sou trabalhador por conta própria, e por isso gasto muito
do meu tempo com a minha grande paixão, que é esta
modalidade. Dou muito do meu tempo e muito do meu dinheiro pelo
hóquei em patins! (risos)
MH: Há quanto tempo estás ligado ao hóquei
em patins feminino?
DP: Estou a trabalhar com o hóquei feminino há
dois anos, e desde que comecei a trabalhar, tenho ficado impressionado
com o hóquei feminino. Acho que a maioria dos jogadores
(homens) de hóquei em patins não sabem nada do hóquei
feminino, pelo menos em Inglaterra. Mas quando comecei a trabalhar
com elas, há dois anos, durante o Campeonato da Europa
de mira, fiquei espantado com o hóquei feminino. Foi fantástico
ver um pavilhão cheio a assistir a um jogo de hóquei
em patins feminino!
MH: E Mira nem tinha tradição no hóquei
em patins...
DP: Exactamente, e essa foi uma das razões que
achei espectacular. Ver o pavilhão cheio todas as noites,
e não apenas quando Portugal estava a jogar! No Chile também
houve muita gente, mas notava-se mais quando o Chile estava a
jogar... Em Mira havia um bom ambiente, e ver tantas pessoas a
assistir a um jogo de mulheres, foi muito bom! Em relação
à qualidade do hóquei praticado por elas, acho que
elas evoluíram, sem dúvidas.
MH: Este tipo de estágios pode ajudar as miúdas
a desenvolverem-se mais rapidamente?
DP: Como as jogadoras mais velhas deixaram a equipa,
devido a vários motivos, e como a nossa equipa é
muito jovem, acho que sim, que é muito bom traze-las aqui.
Para as jogadoras mais novas é muito bom estarem aqui,
principalmente porque aqui podem jogar muitas vezes num rinque
com as dimensões máximas. Em Inglaterra não
temos um único rinque com as dimensões máximas,
e por isso é muito bom para o desenvolvimento das miúdas
que elas venham até cá.
Para nós, direcção técnica, o mais
importante é a atitude das miúdas: estamos a tentar
incutir-lhes uma mentalidade desportiva. Estas viagens ajudam-nos
a disciplina-las, a desenvolver a sua atitude nos treinos...
Para um homem, como eu, é difícil dizer isto, mas
é verdade: as mulheres são muito mas emocionais
do que os homens, e por vezes é muito difícil manter
a equipa unida.
Desde Santiago, as jogadoras aprenderam muitas coisas. As jogadoras
mais velhas deixaram de jogar, mas todas as jogadoras do actual
grupo de trabalho estão a demonstrar uma grande atitude,
estão a treinar muito bem e todas querem aprender muitas
coisas novas.
MH: Assistimos a quase todos os estágios das selecções
mais jovens, aqui, na Feira. Em relação às
miúdas, e para além de jogarem mais e a um nível
mais elevado, o que levam elas daqui? Não podemos esquecer
que infelizmente, muitas destas miúdas não vão
continuar a jogar hóquei...
DP: Penso que, para todos os miúdos que o Carlos
tem trazido até aqui, o mais importante é sair de
Inglaterra. Na minha opinião, estamos a educá-los.
Quando eu era mais novo, aconteceu-me o mesmo, pois estive várias
vezes em Portugal e Espanha, e acho que este tipo de viagens pode
mudar a visão que tens da vida: o facto de experimentares
qualquer coisa fora de Inglaterra.
Todos sabemos que a Inglaterra é um país muito poderoso
e rico, mas eu penso que é muito importante abrir a mente
das crianças, levá-las a viajar por países
diferentes, mostrar-lhes culturas diferentes...
No que diz respeito à parte desportiva, nunca poderemos
esquecer que todos os miúdos que o Carlos trouxe até
aqui tiveram uma experiência totalmente nova.

MH: Pode resumir a ultima época na Premier League,
para que os portugueses possam saber um pouco mais sobre o hóquei
inglês e a equipa do Bury RHC?
DP: Bem… para mim, a última época
foi a última enquanto jogador, e o mesmo aconteceu com
outros dois jogadores que o Bury tinha. No início da época,
perdemos o nosso guarda-redes, que era o titular de Inglaterra
no Mundial “B” de 1998, em Macau. Ele mudou-se por
motivos profissionais.
O guarda-redes mais novo também foi para Espanha, onde
jogou no Vilassar durante esta temporada: sem homens para defender,
decidimos pôr as miúdas na baliza, durante toda a
temporada! Para elas, acho que foi uma grande experiência,
e pelo modo como elas estão a defender neste momento, neste
estágio, é uma boa maneira de mostrar como evoluíram.
Em relação à classificação
final, perdemos o título no último jogo. Houve muita
política a interferir nesse jogo, mas não quero
falar sobre isso. No fim, o mais importante foi que o pavilhão
de Herne Bay estava cheio de gente.
O jogo entre o Herne Bay e o Bury é o mais importante do
hóquei inglês: é o único jogo da temporada
em que conseguimos ter “casa cheia”. Para os jogadores,
toda a temporada resume-se a este jogo: há muita paixão,
e o ambiente para o jogo é excelente! Esta época,
perdemos por 8-6, com uma mulher na baliza... estivemos a perder
por cinco golos, mas não desistimos! Talvez nesta época
estivéssemos destinados a não ganhar!
MH: Como vai ser a próxima temporada?
DP: Para o meu clube, a temporada acabou com a saída
dos cinco jogadores mais experientes. Assim, na próxima
temporada vamos ter de reconstruir toda a equipa. O Bury RHC é
campeão nacional nos sub-13, sub-15 e sub-17, e além
disso, temos muitos jogadores na selecção inglesa
de juniores. Desses jogadores, há muitos com 18 e 19 anos
que querem e precisam de se desenvolver, e por isso vão
jogar na equipa sénior.
Na equipa principal, já temos jovens muito experientes:
um deles é o filho do Carlos Amaral. Quase ninguém
em Portugal o conhece, mas ele é um jogador tecnicamente
evoluído, é muito temperamental.... é muito
português! (risos)
Acho que ele vai ter a melhor temporada de sempre, uma vez que
vai ser o jogador mais velho da equipa, e vai ajudar muito os
jogadores mais novos. Vamos voltar a ter o nosso guarda-redes,
que esteve em Espanha esta época (Vilassar), e um outro
jovem jogador, que também esteve um ano em Espanha, no
Caldes.
Também poderemos vir a contar com mais jogadores, uma vez
que somos o único clube do Este na Primeira Liga, e por
isso, poderá haver muitos jogadores sub-19 de outros clubes
que vão querer juntar-se a nós.
MH: O Bury RHC vai participar na próxima Taça
CERS...
DP: O Bury jogou na taça CERS nos últimos
dois anos, e já tínhamos jogado na Champions League
no ano anterior. No ano passado, jogámos em Tenerife, e
foi uma experiência muito boa para nós. Mas foi uma
vergonha jogar num fabuloso pavilhão espanhol, mas sem
público. Não havia ambiente de jogo, e nesse aspecto
foi uma desilusão, principalmente para os jogadores mais
novos. Estávamos todos à espera de ver muito publico...
mas mesmo assim, foi bom jogar com hoquistas como Miquel Sanchez,
que ainda é um excelente jogador!
No próximo ano, iremos ter outra oportunidade de levar
a nossa equipa para fora. A nossa equipa vai ser muito jovem.
Não me importo se tiver de jogar com alguma equipa poderosa,
até adoraria vir a Portugal ou Espanha, porque seria muito
bom para os jogadores mais novos se jogassem em grandes rinques,
com muito público. Seria uma experiência muito boa
para os jogadores mais novos!

MH: Está orgulhoso da classificação
da Inglaterra no último Mundial?
DP: Joguei por Inglaterra desde 1996. Por vezes, não
podíamos apresentar a nossa melhor equipa... mas desde
que em 2000, quando organizamos o Campeonato do Mundo “B”,
em Buckmore Park, começámos a ter de volta os nossos
melhores jogadores, a selecção nacional começou
a ser cada vez mais importante. Acho que os nossos resultados
foram melhorando, principalmente depois de muitos desses jogadores
começarem a perceber que o Carlos Amaral não estava
no desporto para servir algumas pessoas: ele é um treinador
português que está a dar 150% dele pelo hóquei
em patins inglês! E está a fazer um trabalho magnífico!
Mas em resumo, quando fomos promovidos pela primeira vez, em Buckmore
Park, foi muito bom para o hóquei inglês... mas o
próximo objectivo era a manutenção no Mundial
“A”. Se nos mantivéssemos, estaríamos
num novo nível.
Conseguimos a manutenção em San Jose, e fizemos
um bom trabalho no último Europeu, mas desde então
perdemos muitos jogadores, além de mim.
Em Montreux, a nossa equipa era muito nova, mas eles estavam a
lutar pelo nosso grande objectivo, que era a ficar no Mundial
“A”. Acho que se estivéssemos num grupo preliminar
diferente, acho que teríamos tido uma melhor classificação
final: se olharmos para os resultados, vemos que estes foram muito
equilibrados. No jogo com a Itália, tivemos azar! Recebi
mensagens de toda a Inglaterra, pois estavam todos a pensar “Oh
meu Deus, isto está mesmo a acontecer?” (risos)
Mas depois perdemos o jogo, e foi uma desilusão…
mas ao menos mostramos que poderemos estar num nível mais
elevado, mas ainda não somos suficientemente bons para
atingir esse nível...
MH: Falou do jogo com a Itália, mas e em relação
à Suíça?
DP: DE facto, acho que o hóquei em patins suíço
subiu a um nível diferente. Em relação ao
resultado, acho que fizemos com que eles não vencessem
o grupo. Nós sabíamos que a Itália não
viria com os seus melhores jogadores, mas também sabíamos
que a Suíça ía ser uma equipa perigosa em
Montreux, até porque eram os vice-campeões europeus.
Eu acho que a Suíça começou o campeonato
do Mundo muito devagar, e talvez isso os tenha ajudado a vencer
Portugal e a Argentina na outra fase da prova. Mas na final, foram
completamente cilindradas pela Espanha!
MH: Em resumo, está feliz com a classificação
da selecção nacional inglesa?
DP: Em relação a Inglaterra... sim, foi
muito bom para nós ficarmos no Mundial “A”.
Adoraria estar lá para jogar, pois a minha “geração”
sempre quis lutar pela manutenção no Mundial “A”.
Mas na actual selecção nacional, com jogadores mais
novos, poderemos lutar por melhores classificações,
a seu tempo. Temos dois jogadores excelentes, que estão
a jogar aqui, na Feira. Na Suíça, vimos que esses
dois jogadores terão um grande futuro. Talvez possamos
lutar pelo top-10 nos próximos anos.
MH: Gostaria de saber qual é o seu ponto de vista
em relação ao hóquei em patins inglês.
Sabemos que as selecções nacionais estão
a trabalhar bem, mas... e os clubes? (recrutamento de novos jogadores,
promoção da modalidade, etc...?)
DP: O hóquei, na Inglaterra, é muito forte
no Este. Os melhores números da Federação
Inglesa são actualmente de clubes de leste. Nos anos noventa,
o Norte e o Sul eram mais fortes, e o Este era, de facto, a região
mais fraca...
Mas depois houve uma mudança radical, pois clubes como
o Kings Lynn ou o Peterborough são, neste momentos, os
maiores clubes em Inglaterra. O Kings Lynn tem mais jogadores
nas equipas jovens do que qualquer outro clube no país,
e o treinador deles é muito bom a ensinar os básicos
da modalidade... pena é o clube nunca ter ido mais longe,
nunca tiveram grandes equipas de seniores. Temos também
clubes como o Cambridge, com muitos jovens, mas sem um treinador
qualificado... é mais do género “pais que
ajudam o clube”. Quando os jogadores têm 15 ou 16
anos, aqueles que querem mesmo evoluir e continuar a jogar querem
mudar, e vão para Peterborough e Bury, os únicos
clubes que têm treinadores de nível nacional.
A maior parte dos jogadores que tenho actualmente, chegaram ao
Bury com essa idade. Apesar de ser bom para o clube, porque significa
que trabalhamos num nível superior, também é
complicado para nós. De facto, temos muita dificuldade
em recrutar jogadores mais novos, pois nem sequer jogamos em Bury,
não temos o nosso próprio rinque. Temos de viajar
para fora de Bury, e nem sequer temos escolas de patinagem para
entreter os miúdos... e é muito difícil ir
buscar os miúdos a várias aldeias e escolas, e levá-los
para o rinque de patinagem! Muitos dos miúdos que temos
neste momento, chegaram até nós através de
amigos do clube, e é desta forma que conseguimos ter jogadores
mais novos.
No sul, eles costumavam fazer um trabalho espectacular; Costumavam
ter até mais clubes do que o que têm agora. O Herne
Bay United é o maior clube de Inglaterra, e vai ser sempre
o melhor clube, pois eles têm um pavilhão próprio
e excelentes condições de trabalho. O problema deles
é que em Herne Bay há três clubes, mas os
melhores jogadores vão para o United, e isso faz com que
os outros dois clubes sofram. O maior problema do sul do país
é que não há uma liga regional. Acho que
se eles não conseguirem ter mais clubes, Herne Bay vai
ser sempre um “motor” do hóquei em patins do
sul do país, mas o resto da região vai sofrer, e
mesmo os jogadores de Herne Bay vão sofrer, porque vão
deixar de jogar o suficiente.
No norte, eles têm as suas próprias ligas regionais,
mas só têm uma divisão por cada escalão
etário, pois só têm cinco clubes. Eu diria
que o Middlesborough e o Manchester são os melhores clubes
a trabalhar com os mais novos. O Sheffield também é
um grande clube. Nos anos oitenta, o norte tinha um maior número
de clubes, mas os melhores jogadores mudaram-se para os 2 ou 3
melhores clubes, porque esses tinham os seus rinques próprios.
O problema foi que esses jogadores abandonaram os seus pequenos
clubes, e isso prejudicou seriamente a liga regional.
MH: Como está o hóquei a nível nacional?
DP: Eu acho que a NRHA e, de facto, todos nós,
temos de continuar a trabalhar nas bases. Acho que os maiores
clubes têm de continuar a apostar no trabalho junto dos
sub-9 e sub-11, de modo a continuarem a ter jogadores para as
equipas mais velhas. Infelizmente, só há uns 4 ou
5 clubes que tentam desenvolver as equipas mais novas...