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Entrevista a...
Paulo Freitas
Antes de ir de férias, o treinador da Associação Académica de Espinho, Paulo Freitas, fez o balanço da época. O treinador não esconde a sua alegria por ter conseguido atingir os seus objectivos: colectivos e pessoais.
Saiba também qual a opinião do “mister” sobre outros assuntos que marcam a actualidade do hóquei em patins português...

01/08/2007 Nelson Alves

Mundo do Hóquei: Que balanço é que faz desta época?
Paulo Freitas: Acho que foi uma época bastante positiva, aquela que a Académica de Espinho fez. Com maior ou menor dificuldade, ficamos em primeiro lugar na primeira fase. Na fase final, conquistamos com muito mérito e brilhantismo o segundo lugar...
Não vou esconder que o meu objectivo era ter ficado em primeiro lugar, mas o Braga também fez uma época excelente. O Braga foi uma equipa extremamente regular, tiveram uma única derrota, aqui em Espinho...
Conseguimos chegar aos quartos-de-final da Taça, onde acabamos por perder na lotaria das grandes penalidades, contra o futuro vencedor da prova, o Cambra. A três minutos do fim vencíamos por 3-1, mas não conseguimos atingir a “final four” da prova.
Em resumo, esta foi uma época extremamente positiva, conseguida com muito trabalho e muito sacrifício, por este grupo de jogadores.

MH: Houve uma altura na primeira fase, em que o Espinho teve algumas exibições menos conseguidas... será que, ao ultrapassar essa fase menos boa, o grupo ficou mais forte?
PF:
Sim, houve três ou quatro jogos com exibições menos conseguidas, destaco a derrota com os Carvalhos, que não deveria ter acontecido... Mas acho que nesse aspecto, até nas coisas más devemos tirar ilações positivas. Conseguimos pôr o grupo ainda mais forte e determinado, unindo-o na busca incessante de pelo menos, o segundo lugar, que nos daria a possibilidade de discutir o “play-off” de subida de divisão.
Isto é, no fundo, aquilo que eu venho falando com os jogadores: será que eles se consideram atletas de alta competição? É que, quando falamos de jogadores de alta competição, aquilo que nos vem logo à cabeça é que eles são bem remunerados, e têm de ser profissionais. No meu entender, este grupo é uma equipa de alta competição, não por esses factores, mas porque nós queremos sempre mais e melhor!

MH: Quem quer cada vez mais e melhor, é um treinador ambicioso...
PF:
Claramente. Claramente que sou um treinador ambicioso, tenho alguns objectivos pessoais. Este é um objectivo que eu tinha. No ano passado, com um plantel também “muito engraçado”, num clube que guardo no coração, como foi o académico da feira, estivemos lá perto, contra as perspectivas de muita gente, contra aquilo que muita gente pensava...
Este ano, senti que era um momento de viragem, e por isso aceitei o convite da Académica de Espinho. Este é um clube com pergaminhos no hóquei, mas que precisava de um abanão, estava um pouco adormecido! Não quero, com isto, criticar o meu antecessor, mas felizmente, vim na altura certa, e o tempo deu-me razão. Conseguimos um objectivo importante: para este clube, para os jogadores e... não vou esconder: para mim próprio!

MH: Ao nível da sua formação pessoal e profissional, é um dos poucos treinadores com o curso de nível 3. Quer comentar o adiamento da obrigação aos clubes de terem treinadores com, no mínimo, o curso de nível 2?
PF:
Sinceramente, não gosto de comentar questões administrativas. Mas o que é um facto é que, se em determinado momento foi tomada uma decisão, eu não entendo muito bem que se façam adiamentos sobre coisas que estavam decididas. Mas... já nada me espanta. Estes dirigentes e esta federação têm vindo a tratar muito mal o hóquei em patins!

MH: O Paulo já tem muita experiência prática, pois foi jogador e durante muito tempo, orientou equipas de jovens. Que conhecimentos ganhou com o curso de nível 3?
PF:
Sabe, eu acho que, em tudo na vida, estamos sempre a aprender. É evidente que, ao contactarmos, no curso de nível 3, com determinados prelectores, conseguimos sempre “beber” qualquer coisa que depois poderemos passar à prática. Eu acho que o mais importante é nós termos a faculdade de conseguir juntar estes dois factores: por um lado, o conhecimento cientifico – que é muito importante, e por outro a nossa experiência, o empirismo. Não podemos dissociar uma coisa da outra.

MH: Você este ano só trabalhou com os seniores, mas manteve-se atento à formação da Académica de Espinho?
PF:
Sim, o acordo era para trabalhar só com os seniores, até por uma questão de disponibilidade. Mas posso falar à vontade do trabalho que é feito no clube. É com alguma preocupação que verifico que não há um plano para que as equipas de formação sejam o grande “viveiro” dos seniores. Isto que estamos a fazer (aponta para o rinque, onde decorria um “treino de conjunto” entre os seniores e os escolares), é um primeiro passo. Mas penso que muito mais coisas poderiam e deveriam ser feitas.

MH: A minha pergunta ia no sentido de que a Académica de Espinho é conhecida pelos grandes jogadores que deu ao hóquei português, como o Vítor Hugo ou o Jorge Maceda...
PF:
E acha que de alguma forma, isso parou?

MH: Exacto... e como o Paulo tem experiência na formação do Futebol Clube do Porto...
PF:
Eu também gostaria que todos os anos saíssem das nossas escolas Vítor Hugos e “Xixas”... mas é evidente que nem toda a gente consegue ser jogador de hóquei, e muito menos com a qualidade desses dois excelentes jogadores... mas acho que o objectivo da Académica de Espinho, é trabalhar todos os anos para fazer uma “fornada” dessas!
É óbvio que temos de ter a noção da realidade, e isso seria utópico. Acho é que podemos trabalhar no sentido de melhorar – e muito – a qualidade dos jogadores da formação da Académica de Espinho. Fundamentalmente, acho que temos de conseguir criar estímulos para que os jovens possam complementar a sua actividade escolar com o hóquei. As crianças têm de pensar que vêm para o hóquei para complementarem a sua aprendizagem e para se divertirem.

A OPINIÃO DE PAULO FREITAS SOBRE...
MODELOS COMPETITIVOS: CAMADAS JOVENS

MH: Qual a sua opinião sobre os modelos competitivos para os campeonatos nacionais de jovens, que entraram em vigor esta temporada?
PF:
Acho que há algo importante e que ninguém deve esquecer: é evidente que mesmo nos mais jovens se deve trabalhar a parte competitiva. Mas há factores muito mais importantes. Costumo dizer que um formador tem um papel importante no complemento educacional, sem colidir com a educação que é dada pelos pais em casa. Acho que em Portugal se esquece muito o acompanhamento escolar das crianças! Nós, os treinadores, devemos sempre alertar as crianças que o futuro delas passa por aquilo que eles aprenderem na escola. Temos é que arranjar formas de motivar as crianças para o treino, sem descurar os estudos. Suponho que isto não seja um problema só do hóquei, mas sim do desporto português: dou como exemplo, os miúdos que jogam futebol, e com treze anos já não querem estudar!
Na vertente desportiva, e contra mim falo, poisa gora treino os seniores, acho que os melhores treinadores deveriam estar a treinar na formação, pois é ali que estarão os seniores e os homens de amanhã. Em relação ao modelo competitivo em si, acompanhei durante todo ao no o campeonato nacional de infantis “A”, porque o meu filho joga nos infantis “A” do Futebol Clube do Porto. Acho que a fase que antecedeu a “final four”, com três equipas do norte e três do sul, para apurar duas por cada zona... trouxe um pouco mais de competição, mas acho que não é o modelo mais apropriado.
Na “final four”, num campeonato em três jornadas, o campeão nacional pode ser encontrado logo à segunda... e foi o quea conteceu este ano em todos os escalões, menos nos juniores... mas neste caso, dou o beneficio da duvida à Direcção Técnica da Federação.

MODELOS COMPETITIVOS: SEGUNDA DIVISÃO

MH: A Académica de Espinho não vai disputar a segunda divisão na próxima temporada, mas qual é a sua opinião sobre o modelo actual e o modelo que vai entrar em vigor na próxima época?
PF:
Acho que aquilo que foi feito este ano foi, de alguma forma, matar o hóquei. Estou a falar por acusa do que se passou nos grupos da manutenção: em dez clubes desceram sete!
Isto levou-nos a uma situação em que clubes históricos do hóquei em patins português, como o Infante sagres, que caiu na terceira divisão! Na minha opinião, o modelo competitivo deste ano foi catastrófico para o futuro da modalidade.
Quero aproveitar para tornar publico o meu desejo pessoal de que o Infante Sagres volte rapidamente a ser o clube que era antes, que voltem rapidamente à segunda divisão e um dia, quem sabe, à primeira. Falo do Infante Sagres porque foi lá que comecei a jogar hóquei, até aos juvenis.

MH: E qual é a sua opinião em relação ao novo modelo competitivo?
PF:
Felizmente, não vamos participar nele (risos)! Sinceramente, acho que deveriam ser um pouco mais afoitos e deveriam fazer isto de outra forma, mais económica. Eu treinei a académica de espinho, nuca nos faltou nada, mas temos de ter a noção de que o dinheiro não abunda. Na zona sul, este problema agrava-se, porque há as equipas dos Açores e da Madeira.
Acho que deveria ter sido pensado um outro modelo, com séries mais curtas, mas com níveis competitivos mais elevados.

MH: Na próxima temporada, dos catorze clubes que vão disputar a primeira divisão, nove são do norte...
PF:
Sim, é verdade. O que se passa é que, cada vez mais, o hóquei está voltado para norte. Não me pergunte porquê, pois não sei. Mas acho que isto terá a haver com o facto de no norte se estar a trabalhar melhor, principalmente ao nível da formação. Por outro lado, acho que isto está um pouco relacionado com as características das pessoas... por exemplo, no caso do Espinho, costumo dizer que para além de um grupo de jogadores, tenho um grupo de “guerreiros”: são homens que deixam a pele lá dentro. Se calhar, não se consegue fazer isso em todo o lado...

MH: Apesar da época de sucesso... Espinho ainda é uma cidade de Voleibol?
PF:
É com respeito que vejo que o voleibol é uma modalidade com grande implantação na cidade de Espinho. É com muito respeito que vejo que o Sporting de Espinho é campeão nacional de voleibol, e que a Académica tem uma boa equipa. Fico muito satisfeito quando essas duas equipas conseguem bons resultados.
Mas de minha parte, tudo farei para que amanhã possam dizer que Espinho é uma cidade de hóquei em patins!

 
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