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Entrevista a...
Pedro Mendes
Pedro Mendes, que orientou na última temporada o Riba de Ave e a selecção moçambicana, concedeu-nos uma breve entrevista. Falou da sua passagem pelo clube minhoto, do trabalho na selecção moçambicana e de alguns aspectos que têm marcado a actualidade da modalidade em Portugal.

19/07/2007 Nelson Alves

RIBA D'AVE

Mundo do Hóquei: Que balanço faz desta temporada no Riba de Ave?
Pedro Mendes:
Positivo. O objectivo no início da época era a manutenção: ficar na primeira fase no grupo dos cinco primeiros, para depois, na segunda fase e com mais calma, irmos preparando a próxima época. Fizemos uma primeira volta muito boa, e conseguimos desde logo garantir um objectivo: a manutenção. Sabíamos que este ano seria um ano muito difícil para as equipas que ficassem no grupo da descida, porque em dez equipas, desciam sete.
Na segunda fase, tínhamos como meta “chatear” as equipas que tinham apostado fortemente na subida de divisão, casos do Braga, do Espinho e da Nortecoope.
Nos momentos-chave, fomos castigados em demasia pelas arbitragens e faltou-nos alguma sorte, o que nos afastou da luta pelo segundo lugar.
Mas estávamos a trabalhar, como lhe disse, a pensar na próxima época, e acho que esse objectivo foi conseguido. Eu era um treinador novo, num clube novo, com atletas completamente desabituados dos métodos de trabalho, e era uma época para trabalhar muitos aspectos técnicos e tácticos. Já tinha dito aos dirigentes que, com mais um reforço – que já estava identificado – nós iríamos atacar a subida de divisão na próxima época.

MH: Como treinador, orientou equipas desta região (Famalicense e Riba de Ave), onde é tradicional a aposta na formação. É muito complicado trabalhar com jovens?
PM:
É complicado, mas eu gosto! É por gostar de trabalhar com jovens que, quando os clubes me contactam, penso em projectos de dois / três anos, porque o primeiro ano seria um ano de trabalho intensivo, para aperfeiçoar os atletas ao nível de táctica e técnica individual.
Um dos problemas que tenho visto nos mais jovens, mesmo aqueles que treinam há um ou dois aos com os seniores, é uma grande falta de trabalho de base, e isso dificulta, de certa forma, os primeiros meses de trabalho.
No Famalicense, o primeiro ano foi de trabalho intensivo, e o segundo ano foi a consolidação: o resultado foi a subida de divisão. No Riba de Ave, o meu objectivo era trabalhar exactamente dessa forma: este primeiro ano seria para adaptar os jogadores formados no Riba de Ave a novos métodos de trabalho e depois, na segunda época, “atacar” a subida. Infelizmente, devido aos problemas estruturais do clube, não vai ser possível dar continuidade a este trabalho.

MH: Já tem projectos para o futuro?
PM:
Não, neste momento ainda não. Neste momento, sou um técnico sem clube. Tenho um convite para continuar a trabalhar com a selecção de Moçambique depois do Mundial, a pensar em 2009. Mas ainda é prematuro falar nisso, pois ainda vou pensar se há condições para dar continuidade a este trabalho ou não. Também recebi um convite para treinar uma outra selecção, mas que não pude aceitar por questões profissionais. Neste momento, sou um treinador disponível e aberto a novos desafios.

MOÇAMBIQUE

MH: Que balanço faz desta campanha de Moçambique no Mundial?
PM:
Foi uma experiência muito agradável. Foi bom, apesar de as condições de trabalho não terem sido as melhores, mas sim as que nos puderam disponibilizar. No estágio que fizemos em Lisboa, antes do Mundial, tivemos muitas dificuldades na preparação da equipa, pois não pude contar com três dos jogadores, que actuavam na segunda divisão. Apesar disso, entramos no Mundial com a vontade de colocar em prática o que treinamos. Tínhamos a consciência de que, nos três primeiros jogos, ia ser muito difícil. O grupo era muito forte, com Portugal e França teoricamente – e depois viu-se na prática – nos dois primeiros lugares. Á partida, sabíamos que íamos ficar em terceiro ou quarto, e iríamos depois disputar entre o 9º e o 16º lugares. Tínhamos de carregar todas as baterias para o primeiro jogo da segunda fase.
Contra Portugal, França e Estados Unidos trabalhamos principalmente os aspectos defensivos e de entrosamento dos atletas que não tinham feito todo o estágio realizado em Portugal. Na segunda fase, conseguimos logo o nosso objectivo, pois vencemos a Inglaterra, e garantimos a manutenção no Mundial “A”. Fruto do crescimento da equipa ao longo da competição, acabamos por vencer a Alemanha e acabamos por terminar – desculpe-me a expressão – no primeiro lugar do segundo grupo. Esta classificação foi brilhante, pela forma como conseguimos ultrapassar todos os obstáculos.

TREINADORES

MH: Até que ponto acha importante que os treinadores apostem na sua própria formação?
PM:
Penso que é extremamente importante e essencial este esforço que a Direcção Técnica Nacional e a Federação têm feito para dotar os técnicos portugueses de maior formação. Não vou comentar sobre a forma como os cursos estão estruturados, mas certamente que após os cursos de nível 3 do ano passado e deste ano, vão ser avaliados os aspectos positivos e negativos, no sentido de aperfeiçoar essa formação dos técnicos.
Como treinador, acho que tudo o que seja bom para a formação dos técnicos é bem-vindo.

MH: O que pensa da decisão da FPP em adiar a obrigatoriedade de os clubes terem treinadores com cursos de nível 2 na segunda divisão?
PM:
Na minha opinião pessoal, não achei bem que a Federação recuasse na obrigatoriedade de, a partir da próxima época, os clubes de segunda divisão tivessem técnicos com cursos de nível 2. Não sei o que está por trás disto, o que sei é que os clubes já sabiam há alguns anos que, a partir desta época, esta regra seria implementada. Penso que a Federação deveria esclarecer o porquê deste recuo.

QUADROS COMPETITIVOS

MH: O que pensa do novo quadro competitivo do Campeonato Nacional da Segunda Divisão?
PM:
Penso que esta mudança na Segunda Divisão será positiva. Até aqui, na primeira fase haviam equipas que, pelo seu valor, teoricamente estariam sempre apuradas para a segunda fase. A partir de determinada altura da época, estas equipas estariam a fazer jogos sem qualquer interesse competitivo. Depois, não concordo que se partisse para a segunda fase sem tirar partido do trabalho feito na primeira fase.
Quanto a esta mudança, o tempo irá dizer se é benéfica ou não. Eu penso que sim, que é bom haver apenas um campeonato a duas voltas, em que o primeiro sobe automaticamente e o segundo disputa uma liguilha com o segundo classificado da outra zona. Neste momento, penso que esse modelo se enquadra melhor naquela que é a realidade do hóquei a nível nacional.

MH: O que pensa do novo quadro competitivo para os campeonatos nacionais de jovens, que entrou em vigor esta época?
PM: No que se refere aos juniores e juvenis, sempre fui contra este tipo de modelo competitivo. Não estou de acordo de haverem nacionais de “primeira” e de “segunda” divisão. Penso que ao nível das camadas jovens, os quadros competitivos deveriam ser como eram no passado, com as equipas a jogar os regionais e depois iam sendo apuradas para os nacionais. Assim, estariam presentes nas fases finais aquelas que eram realmente as melhores equipas de cada ano.

MH: Concorda com a introdução dos play-off na primeira divisão?
PM: Acho que o regresso dos play-off à primeira divisão têm vários aspectos a ter em conta. Em termos competitivos e emocionais, é benéfico para as equipas que lutam pelo título. Mas por exemplo, na terceira divisão, não acho bem o que acontece as equipas não apuradas, que terminam bastante cedo os respectivos campeonatos.
Acho que apesar de estes modelos terem sido estudados ao longo dos anos, seria positivo voltarmos a falar sobre eles, para tentar um consenso mais alargado em relação aos quadros competitivos de nível nacional.

MH: Nomeadamente nas camadas jovens?
PM: Principalmente nas camadas jovens.

 
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