29/06/2007 Nelson Alves
CAMPEONATO DO MUNDO DE MONTREUX
Mundo do Hóquei: Que balanço é que
faz do Campeonato do Mundo?
Luís Sénica: Temos de ser sérios,
honestos e frontais e dizer que é um balanço negativo.
Portuga, pelo seu passado e tradição na modalidade,
não pode ter uma classificação como esta!
Eu diria mesmo que Portugal tem a obrigação de estar
sempre entre as três potências da modalidade. Mesmo
ir às meias-finais e não ir mais além não
é bom para nós. Ficamos longe dos nossos objectivos,
que passavam por chegar à final e vencer o Campeonato do
Mundo.
MH: Que consequências trarão esta má
classificação de Portugal para o grupo de trabalho
ou para o próprio seleccionador nacional?
LS: As consequências, para já,
são o profundo desgosto que cada um de nós trouxemos
de Montreux. A partir de agora, importa fazer uma análise.
Importa reflectir, e importa sobretudo criar condições
para que este lugar, que é atípico, não se
volta a repetir nunca mais na história da modalidade.
MH: A Espanha era claramente favorita, e acabou por "cilindrar"
os adversários...
LS: Sim, a Espanha era claramente a mais favorita
a vencer este Mundial. Era a campeã do Mundo e da Europa
em título, e vêm praticado um hóquei de grande
qualidade, não só do ponto de vista táctico,
como também do ponto de vista das suas individualidades.
A Espanha comprovou esse favoritismo e provou que pratica um hóquei
de grande nível e de excelência.
MH: Apesar da classificação da selecção
portuguesa, o mundial terá tido aspectos positivos. Depois
do Mundial dos Estados Unidos de há dois anos, terá
sido bom para a modalidade ter regressado a um local onde o hóquei
tem muitas tradições?
LS: Montreux é desde sempre uma catedral
do hóquei em patins na Europa! Foi uma organização
muito disponível, eu diria que por vezes foi pouco flexível,
muito rigorosa, à boa maneira daquela região. Mas
foi uma organização francamente positiva para a
modalidade, e é desejável que as coisas cada vez
mais sejam assim. Nesse aspecto, a comitiva portuguesa não
tem nenhum reparo a fazer. Tivemos boas assistências, houve
alguns jogos com pavilhão cheio, num ambiente de festa.
Foi muito positivo para a modalidade. As transmissões televisivas,
não só para Portugal, mas também para Angola,
Moçambique, Itália e Espanha, são francamente
positivas para a modalidade, que precisa de se tornar cada vez
mais visível.
ALTERAÇÕES ÁS REGRAS
DO JOGO
MH: Apesar de terem sido debatidas as alterações
às regras do jogo durante a Assembleia-Geral do Mundial
de Montreux, ainda nada ficou totalmente aprovado...
LS: Esta Assembleia Geral do Comité Internacional
não tinha sequer, como objectivo, a aprovação
de qualquer uma dessas medidas. O que aconteceu foi que o presidente
do Comité Europeu – que é também o
coordenador da Comissão Técnica Europeia –
fez uma explicação muito sucinta sobre aquilo que
se pretendia, para que os vários países estivessem
presentes numa outra reunião, que teve lugar no Sábado.
Aí, a Comissão Técnica Europeia fez uma
apresentação em "powerpoint" do projecto,
entregou DVD's a todas as delegações e convidou
todos os presentes para se reunirem nos seus países e,
até 20 de Julho, enviassem para o CERH e para o CIRH as
suas análises. Ficou desde logo estabelecido que não
bastaria dizer "não, porque não". A ideia
foi incentivar os países para que, se tivessem alguma coisa
que não estivessem de acordo, apresentassem alternativas.
Posso revelar que essa reunião teve bastante sucesso.
Estiveram 18 países presentes, e recordo que o Mundial
tinha 16 países a competir. Creio que no geral, as pessoas
estão de acordo que é preciso fazer alguma coisa
pela modalidade em relação às regras. Posso
afirmar que a maioria dos países está de acordo
com muitas das medidas que foram propostas. No entanto, é
preciso continuar a trabalhar, é preciso continuar a estudar
as regras, antes de serem aplicadas. Algumas delas carecem ainda
de uma análise mais profunda.
MH: Todas as decisões vão ficar adiadas
até à próxima reunião, no Chile?
LS: Para já, não se prevê
que seja algo aprovado na Assembleia-Geral do Chile. Aí
será feito um ponto da situação, após
o torneio de Vigo. Mas não me parece que no Chile haja
já "fumo branco" em relação à
alteração a algumas regras. O torneio de Vigo vai
ser a prova máxima de todas as experiências que temos
feito. A próxima edição deste torneio vai
ser jogada com estas novas regras. Penso que a qualidade das equipas
participantes e do próprio torneio, vai-nos permitir perceber
se aquilo que se quer implementar tem ou não tem fundamento,
e se teremos de fazer alterações em algum aspecto.
Há aqui uma duvida que fará perceber o porquê
de as regras não serem já alteradas. É que
há quem defenda que se deve partir por etapas, num projecto
contínuo ao longo dos anos; Por outro lado, há quem
defenda que o projecto deva ser global: o processo não
deve ser contínuo, mas deve ser tudo aceite e colocado
em prática de imediato.
MH: E Portugal defenda qual das duas vias?
LS: O mais importante não é o
que Portugal defende, mas sim o que a Comissão Técnica
defende. E a Comissão Técnica defende, para já,
o hóquei em Patins!
MUDANÇAS NOS MODELOS COMPETITIVOS
MH: Quais são os objectivos da Federação
ao implementar as mudanças nos quadros competitivos, nomeadamente
na 2ª Divisão Nacional da próxima época?
LS: Temos de ir um pouco atrás. Estas
mudanças nos quadros competitivos são fruto de um
trabalho iniciado há sensivelmente dois anos. Vários
grupos de trabalho foram criados para reformular várias
áreas da vida da Federação. Importa dizer
que a proposta apresentada pela Federação em Assembleia-Geral
acabou por não ser aceite na sua totalidade. O resultado
do que foi discutido em várias assembleias é aquilo
que vai acontecera partir do próximo ano. As Associações
– legitimamente representantes dos seus clubes - entenderam
não aceitar a totalidade da proposta que foi colocada sobre
a mesa, entenderam discuti-la. Pensando nos seus clubes, entenderam
que se devia optar por estes novos modelos competitivos. Creio
que, com as coisas vistas deste prisma, todos temos a ganhar;
Vamos é agora ver na prática se isto resulta naquilo
que todos desejamos.
MH: E em relação à questão
económica?
LS: Havia uma outra componente extremamente
importante, que a partir de determinada altura deixou de ser equacionada:
que era criar o melhor modelo competitivo possível, com
o menor custo económico possível. Atendendo até
às dificuldades sócio-económicas que o país
apresenta, e até respeitando as dificuldades que os nossos
próprios clubes apresentam. Havia na primeira proposta
uma redução significativa dos custos. Não
me parece que nos novos modelos, esta situação esteja
a ser contemplada na totalidade.
MH: Qual a sua opinião em relação
aos novos modelos competitivos para as competições
europeias de clubes?
LS: Como membro do grupo de trabalho que propôs
essas alterações, penso que aquilo que foi feito
foi com o pressuposto de melhorar a modalidade. Parece-me que
este novo modelo foi muito bem aceite, é um novo modelo
que pode estimular e eventualmente aumentar a competição
ao nível das melhores equipas da Europa. Este modelo pode
relançar o hóquei europeu numa dinâmica muito
positiva. Vamos ver se assim será.
CAMADAS JOVENS
MH: O modelo em vigor para os campeonatos nacionais nas
camadas jovens é o mais adequado, nomeadamente em relação
à preparação das selecções?
LS: Tal como acontece com o modelo da segunda
divisão, o modelo para as camadas jovens que foi implementado
esta época foi aprovado pelas Associações,
que representam os clubes. Creio que, com a disputa da fase final
como está actualmente, demos um salto qualitativo. Criamos
condições para que esta fase final pudesse aumentar
o patamar competitivo dos nossos jovens. Em linha directa com
as selecções e com os clubes, é isto o mais
desejável.
Parece-me, no entanto, que todos devemos reflectir sobre a forma
como encaramos esta fase final. Se não o fizermos correctamente,
poderemos colocar em causa estes princípios: a componente
desportiva, a parte pedagógica, tudo o que envolve uma
competição para jovens.
MH: A poucos meses do inicio da nova época, quais
são as perspectivas em relação ao novo torneio
inter-regional e à Taça Nacional de sub-18 feminino?
LS: O tempo que estive com a selecção
nacional masculina fez-me perder a concentração
nesse tema, pois estava a preparar o Campeonato do Mundo. Mas
tenho "feedbacks" positivos, penso que as pessoas vão
aderir, e que os clubes percebem o objectivo. Finalmente vai-se
conseguir colocar em prática dois projectos que me parecem
fundamentais para o futuro da modalidade, nomeadamente no feminino,
a curto / médio prazo.
Após o Campeonato da Europa de Sub-19 já tínhamos
debatido também os escalões mistos, que têm
a sua particularidade, têm a sua especificidade, e nós
devemos ir por aí também. Se as pessoas perceberem
que com esta nova competição (Taça Nacional
sub-18), que é umas competição-piloto, poderá
passar brevemente a ser uma competição nacional,
devidamente planeada e ratificada em Assembleia-Geral.
Se esta nova competição vier para ficar, o hóquei
feminino sairá claramente beneficiado. Durante a elaboração
do projecto, fizemos um levantamento exaustivo do número
de atletas, e verificamos que há um grande numero de jovens
que estão ansiosas por jogar, assim os clubes, e as pessoas
que gerem a modalidade, lhes dêem espaço para que
possam praticar a modalidade de que elas gostam.
MH: Já se pensa no Mundial de Juniores Masculinos?
LS: Não. Para já, estamos a pensar
o Europeu Feminino. É a prova seguinte, é a prova
que vamos ter de disputar em casa de um adversário fortíssimo,
que é a Espanha, que tem vindo a mostrar a sua potencialidade
também no feminino. O nosso pensamento, neste momento,
está virado para aí: criar condições
para que a nossa selecção feminina possa chegar
a Espanha e afirmar-se.
CAMPEONATO DA EUROPA FEMININO
MH: A selecção feminina irá ara
Espanha com um novo seleccionador nacional, ou com o Director
Técnico ao comando?
LS: Para já, acho que esse aspecto não
é o mais importante. O mais importante é criar condições
para que estas jovens atletas percebam que aquilo que lhes é
pedido têm repercussões directas nas pessoas que
lhes pedem as coisas. A seu tempo, essa questão será
equacionada, mas está a ser analisada, está a ser
estudada. Eu farei aquilo que a direcção da Federação
entender e aquilo que eu, como responsável por este projecto,
entenda que seja o melhor para a selecção.
MH: Que diferenças espera encontrar em relação
ao Europeu de há dois anos, disputado em Mira?
LS: Penso que não vão haver grandes
oscilações em relação ao número
de equipas presentes. Em relação à qualidade
das mesmas, neste momento penso que se vai manter o equilíbrio.
Aposto claramente num grupo de favoritos, que são os últimos
quatro campeões europeus: Portugal, Espanha, França
e Alemanha. Colocaria num patamar seguinte, ainda que abaixo do
potencial destas selecções, a Inglaterra e a própria
Itália, se essa selecção confirmasse a sua
presença. E eu gostaria muito que isso se confirma-se,
pois a Itália faz falta ao hóquei internacional,
e principalmente ao hóquei feminino. Finalmente, há
a Suíça, que é sempre uma incógnita!