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À conversa com...
Luís Sénica
O Director Técnico Nacional, Professor Luís Sénica, concedeu-nos uma entrevista durante o estágio da selecção de seniores femininos, no Luso, no passado dia 27. Uma entrevista abrangente, onde se falou dos novos projectos e dos objectivos da Direcção Técnica Nacional, já a pensar na próxima temporada.

29/06/2007 Nelson Alves

CAMPEONATO DO MUNDO DE MONTREUX

Mundo do Hóquei: Que balanço é que faz do Campeonato do Mundo?

Luís Sénica: Temos de ser sérios, honestos e frontais e dizer que é um balanço negativo. Portuga, pelo seu passado e tradição na modalidade, não pode ter uma classificação como esta! Eu diria mesmo que Portugal tem a obrigação de estar sempre entre as três potências da modalidade. Mesmo ir às meias-finais e não ir mais além não é bom para nós. Ficamos longe dos nossos objectivos, que passavam por chegar à final e vencer o Campeonato do Mundo.

MH: Que consequências trarão esta má classificação de Portugal para o grupo de trabalho ou para o próprio seleccionador nacional?

LS: As consequências, para já, são o profundo desgosto que cada um de nós trouxemos de Montreux. A partir de agora, importa fazer uma análise. Importa reflectir, e importa sobretudo criar condições para que este lugar, que é atípico, não se volta a repetir nunca mais na história da modalidade.

MH: A Espanha era claramente favorita, e acabou por "cilindrar" os adversários...

LS: Sim, a Espanha era claramente a mais favorita a vencer este Mundial. Era a campeã do Mundo e da Europa em título, e vêm praticado um hóquei de grande qualidade, não só do ponto de vista táctico, como também do ponto de vista das suas individualidades. A Espanha comprovou esse favoritismo e provou que pratica um hóquei de grande nível e de excelência.

MH: Apesar da classificação da selecção portuguesa, o mundial terá tido aspectos positivos. Depois do Mundial dos Estados Unidos de há dois anos, terá sido bom para a modalidade ter regressado a um local onde o hóquei tem muitas tradições?

LS: Montreux é desde sempre uma catedral do hóquei em patins na Europa! Foi uma organização muito disponível, eu diria que por vezes foi pouco flexível, muito rigorosa, à boa maneira daquela região. Mas foi uma organização francamente positiva para a modalidade, e é desejável que as coisas cada vez mais sejam assim. Nesse aspecto, a comitiva portuguesa não tem nenhum reparo a fazer. Tivemos boas assistências, houve alguns jogos com pavilhão cheio, num ambiente de festa. Foi muito positivo para a modalidade. As transmissões televisivas, não só para Portugal, mas também para Angola, Moçambique, Itália e Espanha, são francamente positivas para a modalidade, que precisa de se tornar cada vez mais visível.

ALTERAÇÕES ÁS REGRAS DO JOGO

MH: Apesar de terem sido debatidas as alterações às regras do jogo durante a Assembleia-Geral do Mundial de Montreux, ainda nada ficou totalmente aprovado...

LS: Esta Assembleia Geral do Comité Internacional não tinha sequer, como objectivo, a aprovação de qualquer uma dessas medidas. O que aconteceu foi que o presidente do Comité Europeu – que é também o coordenador da Comissão Técnica Europeia – fez uma explicação muito sucinta sobre aquilo que se pretendia, para que os vários países estivessem presentes numa outra reunião, que teve lugar no Sábado.

Aí, a Comissão Técnica Europeia fez uma apresentação em "powerpoint" do projecto, entregou DVD's a todas as delegações e convidou todos os presentes para se reunirem nos seus países e, até 20 de Julho, enviassem para o CERH e para o CIRH as suas análises. Ficou desde logo estabelecido que não bastaria dizer "não, porque não". A ideia foi incentivar os países para que, se tivessem alguma coisa que não estivessem de acordo, apresentassem alternativas.

Posso revelar que essa reunião teve bastante sucesso. Estiveram 18 países presentes, e recordo que o Mundial tinha 16 países a competir. Creio que no geral, as pessoas estão de acordo que é preciso fazer alguma coisa pela modalidade em relação às regras. Posso afirmar que a maioria dos países está de acordo com muitas das medidas que foram propostas. No entanto, é preciso continuar a trabalhar, é preciso continuar a estudar as regras, antes de serem aplicadas. Algumas delas carecem ainda de uma análise mais profunda.

MH: Todas as decisões vão ficar adiadas até à próxima reunião, no Chile?

LS: Para já, não se prevê que seja algo aprovado na Assembleia-Geral do Chile. Aí será feito um ponto da situação, após o torneio de Vigo. Mas não me parece que no Chile haja já "fumo branco" em relação à alteração a algumas regras. O torneio de Vigo vai ser a prova máxima de todas as experiências que temos feito. A próxima edição deste torneio vai ser jogada com estas novas regras. Penso que a qualidade das equipas participantes e do próprio torneio, vai-nos permitir perceber se aquilo que se quer implementar tem ou não tem fundamento, e se teremos de fazer alterações em algum aspecto.

Há aqui uma duvida que fará perceber o porquê de as regras não serem já alteradas. É que há quem defenda que se deve partir por etapas, num projecto contínuo ao longo dos anos; Por outro lado, há quem defenda que o projecto deva ser global: o processo não deve ser contínuo, mas deve ser tudo aceite e colocado em prática de imediato.

MH: E Portugal defenda qual das duas vias?

LS: O mais importante não é o que Portugal defende, mas sim o que a Comissão Técnica defende. E a Comissão Técnica defende, para já, o hóquei em Patins!

MUDANÇAS NOS MODELOS COMPETITIVOS

MH: Quais são os objectivos da Federação ao implementar as mudanças nos quadros competitivos, nomeadamente na 2ª Divisão Nacional da próxima época?

LS: Temos de ir um pouco atrás. Estas mudanças nos quadros competitivos são fruto de um trabalho iniciado há sensivelmente dois anos. Vários grupos de trabalho foram criados para reformular várias áreas da vida da Federação. Importa dizer que a proposta apresentada pela Federação em Assembleia-Geral acabou por não ser aceite na sua totalidade. O resultado do que foi discutido em várias assembleias é aquilo que vai acontecera partir do próximo ano. As Associações – legitimamente representantes dos seus clubes - entenderam não aceitar a totalidade da proposta que foi colocada sobre a mesa, entenderam discuti-la. Pensando nos seus clubes, entenderam que se devia optar por estes novos modelos competitivos. Creio que, com as coisas vistas deste prisma, todos temos a ganhar; Vamos é agora ver na prática se isto resulta naquilo que todos desejamos.

MH: E em relação à questão económica?

LS: Havia uma outra componente extremamente importante, que a partir de determinada altura deixou de ser equacionada: que era criar o melhor modelo competitivo possível, com o menor custo económico possível. Atendendo até às dificuldades sócio-económicas que o país apresenta, e até respeitando as dificuldades que os nossos próprios clubes apresentam. Havia na primeira proposta uma redução significativa dos custos. Não me parece que nos novos modelos, esta situação esteja a ser contemplada na totalidade.

MH: Qual a sua opinião em relação aos novos modelos competitivos para as competições europeias de clubes?

LS: Como membro do grupo de trabalho que propôs essas alterações, penso que aquilo que foi feito foi com o pressuposto de melhorar a modalidade. Parece-me que este novo modelo foi muito bem aceite, é um novo modelo que pode estimular e eventualmente aumentar a competição ao nível das melhores equipas da Europa. Este modelo pode relançar o hóquei europeu numa dinâmica muito positiva. Vamos ver se assim será.

CAMADAS JOVENS

MH: O modelo em vigor para os campeonatos nacionais nas camadas jovens é o mais adequado, nomeadamente em relação à preparação das selecções?

LS: Tal como acontece com o modelo da segunda divisão, o modelo para as camadas jovens que foi implementado esta época foi aprovado pelas Associações, que representam os clubes. Creio que, com a disputa da fase final como está actualmente, demos um salto qualitativo. Criamos condições para que esta fase final pudesse aumentar o patamar competitivo dos nossos jovens. Em linha directa com as selecções e com os clubes, é isto o mais desejável.

Parece-me, no entanto, que todos devemos reflectir sobre a forma como encaramos esta fase final. Se não o fizermos correctamente, poderemos colocar em causa estes princípios: a componente desportiva, a parte pedagógica, tudo o que envolve uma competição para jovens.

MH: A poucos meses do inicio da nova época, quais são as perspectivas em relação ao novo torneio inter-regional e à Taça Nacional de sub-18 feminino?

LS: O tempo que estive com a selecção nacional masculina fez-me perder a concentração nesse tema, pois estava a preparar o Campeonato do Mundo. Mas tenho "feedbacks" positivos, penso que as pessoas vão aderir, e que os clubes percebem o objectivo. Finalmente vai-se conseguir colocar em prática dois projectos que me parecem fundamentais para o futuro da modalidade, nomeadamente no feminino, a curto / médio prazo.

Após o Campeonato da Europa de Sub-19 já tínhamos debatido também os escalões mistos, que têm a sua particularidade, têm a sua especificidade, e nós devemos ir por aí também. Se as pessoas perceberem que com esta nova competição (Taça Nacional sub-18), que é umas competição-piloto, poderá passar brevemente a ser uma competição nacional, devidamente planeada e ratificada em Assembleia-Geral.

Se esta nova competição vier para ficar, o hóquei feminino sairá claramente beneficiado. Durante a elaboração do projecto, fizemos um levantamento exaustivo do número de atletas, e verificamos que há um grande numero de jovens que estão ansiosas por jogar, assim os clubes, e as pessoas que gerem a modalidade, lhes dêem espaço para que possam praticar a modalidade de que elas gostam.

MH: Já se pensa no Mundial de Juniores Masculinos?

LS: Não. Para já, estamos a pensar o Europeu Feminino. É a prova seguinte, é a prova que vamos ter de disputar em casa de um adversário fortíssimo, que é a Espanha, que tem vindo a mostrar a sua potencialidade também no feminino. O nosso pensamento, neste momento, está virado para aí: criar condições para que a nossa selecção feminina possa chegar a Espanha e afirmar-se.

CAMPEONATO DA EUROPA FEMININO

MH: A selecção feminina irá ara Espanha com um novo seleccionador nacional, ou com o Director Técnico ao comando?

LS: Para já, acho que esse aspecto não é o mais importante. O mais importante é criar condições para que estas jovens atletas percebam que aquilo que lhes é pedido têm repercussões directas nas pessoas que lhes pedem as coisas. A seu tempo, essa questão será equacionada, mas está a ser analisada, está a ser estudada. Eu farei aquilo que a direcção da Federação entender e aquilo que eu, como responsável por este projecto, entenda que seja o melhor para a selecção.

MH: Que diferenças espera encontrar em relação ao Europeu de há dois anos, disputado em Mira?

LS: Penso que não vão haver grandes oscilações em relação ao número de equipas presentes. Em relação à qualidade das mesmas, neste momento penso que se vai manter o equilíbrio. Aposto claramente num grupo de favoritos, que são os últimos quatro campeões europeus: Portugal, Espanha, França e Alemanha. Colocaria num patamar seguinte, ainda que abaixo do potencial destas selecções, a Inglaterra e a própria Itália, se essa selecção confirmasse a sua presença. E eu gostaria muito que isso se confirma-se, pois a Itália faz falta ao hóquei internacional, e principalmente ao hóquei feminino. Finalmente, há a Suíça, que é sempre uma incógnita!

 
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