Entrevista a…
Paulo Barreira (Treinador Hóquei de Cambra)
Paulo Barreira foi o técnico que levou o Hóquei Académico de Cambra ao título de campeão nacional da Segunda Divisão…
(foto: HAC.pt)
Mundo do Hóquei: Depois de estar há cerca de um ano e meio no comando técnico do Hóquei Académico de Cambra, regressa à primeira divisão, com o título de campeão nacional da segunda divisão. O balanço a nível desportivo é positivo…
Paulo Barreira: Sim, o balanço é claramente positivo. Os resultados falam por si, e os objectivos propostos foram atingidos: o principal era a subida de divisão, mas depois conseguimos o título nacional. Foi uma época fantástica!
Mas… claro que tudo isto foi conseguido por etapas. No princípio, a equipa teve de se adaptar ao quadro competitivo da Segunda Divisão, e à sua realidade. E isso custou um bocado! Com o passar do tempo, os jogadores mentalizaram-se que, apesar de estarem habituados a primeira divisão, a segunda também tem a sua qualidade… e colocaram todo o seu saber ao serviço do colectivo, de modo a atingir mais facilmente os seus objectivos.
Mundo do Hóquei: Mas esperava facilidades na Segunda Divisão?
Paulo Barreira: Não, não esperava! Eu conhecia muito bem a segunda divisão, e tinha alertado os meus jogadores para certas dificuldades. É óbvio que o factor psicológico começou a ser mais forte, vitória após vitória… as coisas começaram a tornar-se mais simples, mais por mérito do Cambra do que demérito dos adversários.
Mundo do Hóquei: Qual considera ter sido o jogo-chave da temporada? Aquele em que todos disseram que já tinham atingido o objectivo?
Paulo Barreira: Nós nunca dissemos que tínhamos conseguido o objectivo, antes de o termos garantido matematicamente. Isso aconteceu no jogo com o Marco, que vencemos em casa.
No entanto eu, como treinador, senti que estávamos mais perto do objectivo no primeiro jogo da segunda volta, onde vencemos o Infante, no Infante! Mais à frente, considero importante a vitória em casa, sobre a Nortecoope. Estamos a falar de dois adversários que estavam, na altura, ambos no segundo lugar. Com essas vitórias, que foram praticamente uma a seguir à outra, eu como treinador pensei que estávamos mais perto de atingir o objectivo.
Mas só após o jogo com o Marco é que pudemos respirar de alívio, porque o objectivo tinha sido matematicamente atingido!
Mundo do Hóquei: Os dois jogos da final foram diferentes, por exemplo, a nível do número de golos. Estas duas partidas finais foram a imagem do Cambra ao longo da temporada?
Paulo Barreira: Estes jogos foram diferentes entre si, e foram diferentes dos jogos do campeonato. A final decidia-se em dois jogos, e o campeonato decidiu-se na regularidade.
Na final, defrontámos uma belíssima equipa, que é o Cascais. É uma equipa que tem os princípios de jogo muito bem assimilados, e que nos trouxe muitas dificuldades nas duas mãos.
Penso que nas duas mãos o Hóquei Académico de Cambra demonstrou a sua maturidade, com o jogo colectivo e a grande maturidade competitiva. Acabou por conseguir a vitória em ambos os jogos, pelos pormenores: vencemos o primeiro jogo por 2-1, e o Cascais jogava em casa no segundo jogo. Só graças à qualidade do nosso plantel é que conseguimos delinear uma estratégia em que usamos muito o factor psicológico, a posse de bola a gestão do tempo, etc…
Claro que, quando estávamos a vencer por 6-2, apesar de eu ter avisado para o facto de o Cascais ir fazer tudo para não sair do jogo com aquele resultado, o subconsciente dos jogadores falou mais alto e acabamos por sofrer mais golos. Mesmo assim, creio que acabamos por controlar o jogo em si.
Mundo do Hóquei: O plantel do Cambra vai ser remodelado na próxima temporada…
Paulo Barreira: A base do plantel mantém-se, porque não há condições financeiras para mudar tudo e mais alguma coisa e porque, como é óbvio, não era essa a minha intenção! Os meus jogadores têm qualidade e demonstraram que podiam jogar na Primeira Divisão!
Claro que vamos ter de adaptar o plantel a outras exigências competitivas…
Mundo do Hóquei: Que tipo de jogadores procura o vosso clube para jogar na Primeira Divisão na próxima temporada?
Paulo Barreira: Não existe um jogador-tipo definido. Há, sim, um determinado lote de jogadores que, pelas suas características e qualidade, podem ajudar-nos a atingir determinados objectivos. Queremos jogadores com espírito de sacrifício enorme, tem de ter espírito de camaradagem, tem de ter humildade e tem de ter ambição.
Eu foco principalmente estes dois últimos aspectos. Acredito que se um atleta tiver atitude e ambição, e se souber coloca isso ao dispor do colectivo, o grupo consegue mais facilmente atingir determinados resultados.
Mundo do Hóquei: Na próxima temporada, vamos ter 16 equipas na Primeira Divisão, descendo quatro. O Cambra vai lutar pela manutenção, ou pode aspirar a algo mais?
Paulo Barreira: Qualquer treinador de um clube humilde e modesto como é o Hóquei Académico de Cambra, quando começa uma temporada, pensa sempre em conseguir a manutenção, e esse vai ser o principal objectivo para a próxima época.
É óbvio que eu como treinador, e quero passar esta ideia a todo o meu plantel da próxima temporada, penso que nada nem ninguém nos pode roubar um sonho ou um objectivo maior do que a manutenção! Mas claro… teremos de entrar em cada jogo para vencer e, no fim, seja qual for o resultado, sair de consciência tranquila, porque demos o nosso melhor!
Se no final da época terminarmos a meio da tabela, vamos achar que foi uma época positiva. Mas se acabarmos com a manutenção garantida e no 12º lugar, os objectivos foram atingidos na mesma!
Mundo do Hóquei: Como reagiu a cidade de Vale de Cambra a mais este sucesso da equipa principal do clube, ainda para mais numa época em que as camadas jovens também conseguiram bons resultados?
Paulo Barreira: O Hóquei Académico de Cambra viveu, esta época, momentos muito bonitos. Além da subida da equipa sénior da Segunda à Primeira Divisão, é de enaltecer a excelente época da equipa de iniciados que, através do seu treinador Carlos Franqueira, atingiu um objectivo que poucos clubes da Associação de Patinagem de Aveiro conseguiram.
Este é um trabalho que tem sido desenvolvido gradualmente, com calma, sem queimar etapas e que tem, como objectivo, servir no futuro para alimentar a equipa sénior com jogadores da terra. Eu penso que a cidade não vive tanto o hóquei como eu esperaria… mas no entanto, começa-se a ver que o hóquei é cada vez mais a primeira modalidade de Vale de Cambra.
O clube tem várias presenças na Primeira Divisão, tem uma vitória na Taça de Portugal e agora tem também este sucesso nas camadas de formação. Acho que tudo isto é fantástico, para um clube com apenas dez anos de existência!
Mundo do Hóquei: Falemos de hóquei em patins em termos gerais. Estamos quase a fazer um ano de novas regras… qual a sua opinião, em termos gerais, sobre o hóquei em patins actual, com as novas regras?
Paulo Barreira: Eu fui um dos defensores da maior parte destas novas regras. Eu penso que em termos genéricos esta mudança foi bastante positiva, e penso que se pode provar estatisticamente com resultados de jogos, golos marcados e golos sofridos, casos de disciplina, etc… No entanto, acho que só na próxima época, com um novo quadro competitivo e regras já assimiladas poderemos fazer um balanço mais concreto.
Acho que a situação de jogo passivo em ataque organizado tem de ser revista. Acho que isso deveria ser contado com um cronómetro, e não “mentalmente” pelos árbitros.
Temos de clarificar se é jogo passivo porque uma equipa não quer atacar, ou porque a outra equipa é muito eficaz a defender… Para mim, não faz sentido nenhum um árbitro marcar jogo passivo numa situação em que uma equipa está a perder por um golo de diferença.
Não acredito que a perder por margem mínima, uma equipa não queira atacar a baliza!
Mas em termos genéricos, acho que as novas regras são bastante positivas!
Mundo do Hóquei: Em termos genéricos… o hóquei em patins tem futuro, ao nível mediático?
Paulo Barreira: O hóquei em patins precisa de um marketing muito mas veloz, muito mais forte… se não fossem alguns clubes como o HAC ou sites como o “Mundo do Hóquei” que, quer se goste quer não, tem sempre notícias actuais, onde as pessoas podem procurar uma série de aspectos sobre hóquei em patins, já que eles não são muito vistos nos jornais desportivos diários. Estes dão pouco destaque ao hóquei e, quando o fazem, é pelas piores razões, infelizmente. Estes sites e blogues, bem como os clubes que transmitem os seus jogos na internet, colmatam de facto, a falta de hóquei em patins na televisão.
Penso que faltam aspectos de marketing bastante importantes, onde se possam divulgar o hóquei em patins pelas coisas boas, e não pelas coisas más.
