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Entrevista a...

Darrel Pearce (Treinador-Adjunto Selecção Inglesa Séniores Femininos)

Darrel Pearce (Treinador-Adjunto Selecção Inglesa Séniores Femininos)
Aquando do estágio da selecção inglesa de seniores femininos, o seleccionador Darrel Pearce concedeu-nos uma entrevista. Nela, abordamos vários temas,...

Aquando do estágio da selecção inglesa de seniores femininos, o seleccionador Darrel Pearce concedeu-nos uma entrevista. Nela, abordamos vários temas, como a selecção inglesa (masculina e feminina), o hóquei inglês, etc...
Foi um tempo bem passado, com uma excelente pessoa, um jovem treinador que poderá continuar a dar muito pelo hóquei em patins inglês no futuro. Boa Sorte, Darrel!


Mundo do Hóquei: A pergunta que alguns dos visitantes portugueses do nosso site irão fazer: quem é o Darrel Pearce?
Darrel Pearce:
Em primeiro lugar, eu fui capitão da selecção inglesa nos últimos quatro anos. A única razão para eu não ter ido ao Campeonato do Mundo de Montreux foi porque me lesionei.
Na Federação Inglesa, estou a trabalhar com Carlos Amaral; Sou o seu “número dois”. Sou o treinador principal da selecção feminina, e também ajudo no trabalho com as selecções de sub-13, sub-15 e sub-17. Quando o Carlos não está presente, sou eu que dirijo os treinos.
Sou também o treinador principal da equipa de seniores masculinos do Bury Roller Hockey Club, que é, neste momento, o segundo clube com mais sucesso em Inglaterra... e está a crescer a cada ano que passa!
Sou trabalhador por conta própria, e por isso gasto muito do meu tempo com a minha grande paixão, que é esta modalidade. Dou muito do meu tempo e muito do meu dinheiro pelo hóquei em patins! (risos)

MH: Há quanto tempo estás ligado ao hóquei em patins feminino?
DP:
Estou a trabalhar com o hóquei feminino há dois anos, e desde que comecei a trabalhar, tenho ficado impressionado com o hóquei feminino. Acho que a maioria dos jogadores (homens) de hóquei em patins não sabem nada do hóquei feminino, pelo menos em Inglaterra. Mas quando comecei a trabalhar com elas, há dois anos, durante o Campeonato da Europa de mira, fiquei espantado com o hóquei feminino. Foi fantástico ver um pavilhão cheio a assistir a um jogo de hóquei em patins feminino!

MH: E Mira nem tinha tradição no hóquei em patins...
DP:
Exactamente, e essa foi uma das razões que achei espectacular. Ver o pavilhão cheio todas as noites, e não apenas quando Portugal estava a jogar! No Chile também houve muita gente, mas notava-se mais quando o Chile estava a jogar... Em Mira havia um bom ambiente, e ver tantas pessoas a assistir a um jogo de mulheres, foi muito bom! Em relação à qualidade do hóquei praticado por elas, acho que elas evoluíram, sem dúvidas.

MH: Este tipo de estágios pode ajudar as miúdas a desenvolverem-se mais rapidamente?
DP:
Como as jogadoras mais velhas deixaram a equipa, devido a vários motivos, e como a nossa equipa é muito jovem, acho que sim, que é muito bom traze-las aqui. Para as jogadoras mais novas é muito bom estarem aqui, principalmente porque aqui podem jogar muitas vezes num rinque com as dimensões máximas. Em Inglaterra não temos um único rinque com as dimensões máximas, e por isso é muito bom para o desenvolvimento das miúdas que elas venham até cá.
Para nós, direcção técnica, o mais importante é a atitude das miúdas: estamos a tentar incutir-lhes uma mentalidade desportiva. Estas viagens ajudam-nos a disciplina-las, a desenvolver a sua atitude nos treinos...
Para um homem, como eu, é difícil dizer isto, mas é verdade: as mulheres são muito mas emocionais do que os homens, e por vezes é muito difícil manter a equipa unida.
Desde Santiago, as jogadoras aprenderam muitas coisas. As jogadoras mais velhas deixaram de jogar, mas todas as jogadoras do actual grupo de trabalho estão a demonstrar uma grande atitude, estão a treinar muito bem e todas querem aprender muitas coisas novas.

MH: Assistimos a quase todos os estágios das selecções mais jovens, aqui, na Feira. Em relação às miúdas, e para além de jogarem mais e a um nível mais elevado, o que levam elas daqui? Não podemos esquecer que infelizmente, muitas destas miúdas não vão continuar a jogar hóquei...
DP:
Penso que, para todos os miúdos que o Carlos tem trazido até aqui, o mais importante é sair de Inglaterra. Na minha opinião, estamos a educá-los. Quando eu era mais novo, aconteceu-me o mesmo, pois estive várias vezes em Portugal e Espanha, e acho que este tipo de viagens pode mudar a visão que tens da vida: o facto de experimentares qualquer coisa fora de Inglaterra.
Todos sabemos que a Inglaterra é um país muito poderoso e rico, mas eu penso que é muito importante abrir a mente das crianças, levá-las a viajar por países diferentes, mostrar-lhes culturas diferentes...
No que diz respeito à parte desportiva, nunca poderemos esquecer que todos os miúdos que o Carlos trouxe até aqui tiveram uma experiência totalmente nova.



MH: Pode resumir a ultima época na Premier League, para que os portugueses possam saber um pouco mais sobre o hóquei inglês e a equipa do Bury RHC?
DP:
Bem… para mim, a última época foi a última enquanto jogador, e o mesmo aconteceu com outros dois jogadores que o Bury tinha. No início da época, perdemos o nosso guarda-redes, que era o titular de Inglaterra no Mundial “B” de 1998, em Macau. Ele mudou-se por motivos profissionais.
O guarda-redes mais novo também foi para Espanha, onde jogou no Vilassar durante esta temporada: sem homens para defender, decidimos pôr as miúdas na baliza, durante toda a temporada! Para elas, acho que foi uma grande experiência, e pelo modo como elas estão a defender neste momento, neste estágio, é uma boa maneira de mostrar como evoluíram.
Em relação à classificação final, perdemos o título no último jogo. Houve muita política a interferir nesse jogo, mas não quero falar sobre isso. No fim, o mais importante foi que o pavilhão de Herne Bay estava cheio de gente.
O jogo entre o Herne Bay e o Bury é o mais importante do hóquei inglês: é o único jogo da temporada em que conseguimos ter “casa cheia”. Para os jogadores, toda a temporada resume-se a este jogo: há muita paixão, e o ambiente para o jogo é excelente! Esta época, perdemos por 8-6, com uma mulher na baliza... estivemos a perder por cinco golos, mas não desistimos! Talvez nesta época estivéssemos destinados a não ganhar!

MH: Como vai ser a próxima temporada?
DP:
Para o meu clube, a temporada acabou com a saída dos cinco jogadores mais experientes. Assim, na próxima temporada vamos ter de reconstruir toda a equipa. O Bury RHC é campeão nacional nos sub-13, sub-15 e sub-17, e além disso, temos muitos jogadores na selecção inglesa de juniores. Desses jogadores, há muitos com 18 e 19 anos que querem e precisam de se desenvolver, e por isso vão jogar na equipa sénior.
Na equipa principal, já temos jovens muito experientes: um deles é o filho do Carlos Amaral. Quase ninguém em Portugal o conhece, mas ele é um jogador tecnicamente evoluído, é muito temperamental.... é muito português! (risos)
Acho que ele vai ter a melhor temporada de sempre, uma vez que vai ser o jogador mais velho da equipa, e vai ajudar muito os jogadores mais novos. Vamos voltar a ter o nosso guarda-redes, que esteve em Espanha esta época (Vilassar), e um outro jovem jogador, que também esteve um ano em Espanha, no Caldes.
Também poderemos vir a contar com mais jogadores, uma vez que somos o único clube do Este na Primeira Liga, e por isso, poderá haver muitos jogadores sub-19 de outros clubes que vão querer juntar-se a nós.

MH: O Bury RHC vai participar na próxima Taça CERS...
DP:
O Bury jogou na taça CERS nos últimos dois anos, e já tínhamos jogado na Champions League no ano anterior. No ano passado, jogámos em Tenerife, e foi uma experiência muito boa para nós. Mas foi uma vergonha jogar num fabuloso pavilhão espanhol, mas sem público. Não havia ambiente de jogo, e nesse aspecto foi uma desilusão, principalmente para os jogadores mais novos. Estávamos todos à espera de ver muito publico... mas mesmo assim, foi bom jogar com hoquistas como Miquel Sanchez, que ainda é um excelente jogador!
No próximo ano, iremos ter outra oportunidade de levar a nossa equipa para fora. A nossa equipa vai ser muito jovem. Não me importo se tiver de jogar com alguma equipa poderosa, até adoraria vir a Portugal ou Espanha, porque seria muito bom para os jogadores mais novos se jogassem em grandes rinques, com muito público. Seria uma experiência muito boa para os jogadores mais novos!



MH: Está orgulhoso da classificação da Inglaterra no último Mundial?
DP:
Joguei por Inglaterra desde 1996. Por vezes, não podíamos apresentar a nossa melhor equipa... mas desde que em 2000, quando organizamos o Campeonato do Mundo “B”, em Buckmore Park, começámos a ter de volta os nossos melhores jogadores, a selecção nacional começou a ser cada vez mais importante. Acho que os nossos resultados foram melhorando, principalmente depois de muitos desses jogadores começarem a perceber que o Carlos Amaral não estava no desporto para servir algumas pessoas: ele é um treinador português que está a dar 150% dele pelo hóquei em patins inglês! E está a fazer um trabalho magnífico!
Mas em resumo, quando fomos promovidos pela primeira vez, em Buckmore Park, foi muito bom para o hóquei inglês... mas o próximo objectivo era a manutenção no Mundial “A”. Se nos mantivéssemos, estaríamos num novo nível.
Conseguimos a manutenção em San Jose, e fizemos um bom trabalho no último Europeu, mas desde então perdemos muitos jogadores, além de mim.
Em Montreux, a nossa equipa era muito nova, mas eles estavam a lutar pelo nosso grande objectivo, que era a ficar no Mundial “A”.
Acho que se estivéssemos num grupo preliminar diferente, acho que teríamos tido uma melhor classificação final: se olharmos para os resultados, vemos que estes foram muito equilibrados. No jogo com a Itália, tivemos azar! Recebi mensagens de toda a Inglaterra, pois estavam todos a pensar “Oh meu Deus, isto está mesmo a acontecer?” (risos)
Mas depois perdemos o jogo, e foi uma desilusão… mas ao menos mostramos que poderemos estar num nível mais elevado, mas ainda não somos suficientemente bons para atingir esse nível...

MH: Falou do jogo com a Itália, mas e em relação à Suíça?
DP:
DE facto, acho que o hóquei em patins suíço subiu a um nível diferente. Em relação ao resultado, acho que fizemos com que eles não vencessem o grupo. Nós sabíamos que a Itália não viria com os seus melhores jogadores, mas também sabíamos que a Suíça ía ser uma equipa perigosa em Montreux, até porque eram os vice-campeões europeus. Eu acho que a Suíça começou o campeonato do Mundo muito devagar, e talvez isso os tenha ajudado a vencer Portugal e a Argentina na outra fase da prova. Mas na final, foram completamente cilindradas pela Espanha!

MH: Em resumo, está feliz com a classificação da selecção nacional inglesa?
DP:
Em relação a Inglaterra... sim, foi muito bom para nós ficarmos no Mundial “A”. Adoraria estar lá para jogar, pois a minha “geração” sempre quis lutar pela manutenção no Mundial “A”. Mas na actual selecção nacional, com jogadores mais novos, poderemos lutar por melhores classificações, a seu tempo. Temos dois jogadores excelentes, que estão a jogar aqui, na Feira. Na Suíça, vimos que esses dois jogadores terão um grande futuro. Talvez possamos lutar pelo top-10 nos próximos anos.

MH: Gostaria de saber qual é o seu ponto de vista em relação ao hóquei em patins inglês. Sabemos que as selecções nacionais estão a trabalhar bem, mas... e os clubes? (recrutamento de novos jogadores, promoção da modalidade, etc...?)
DP:
O hóquei, na Inglaterra, é muito forte no Este. Os melhores números da Federação Inglesa são actualmente de clubes de leste. Nos anos noventa, o Norte e o Sul eram mais fortes, e o Este era, de facto, a região mais fraca...
Mas depois houve uma mudança radical, pois clubes como o Kings Lynn ou o Peterborough são, neste momentos, os maiores clubes em Inglaterra. O Kings Lynn tem mais jogadores nas equipas jovens do que qualquer outro clube no país, e o treinador deles é muito bom a ensinar os básicos da modalidade... pena é o clube nunca ter ido mais longe, nunca tiveram grandes equipas de seniores. Temos também clubes como o Cambridge, com muitos jovens, mas sem um treinador qualificado... é mais do género “pais que ajudam o clube”. Quando os jogadores têm 15 ou 16 anos, aqueles que querem mesmo evoluir e continuar a jogar querem mudar, e vão para Peterborough e Bury, os únicos clubes que têm treinadores de nível nacional.
A maior parte dos jogadores que tenho actualmente, chegaram ao Bury com essa idade. Apesar de ser bom para o clube, porque significa que trabalhamos num nível superior, também é complicado para nós. De facto, temos muita dificuldade em recrutar jogadores mais novos, pois nem sequer jogamos em Bury, não temos o nosso próprio rinque. Temos de viajar para fora de Bury, e nem sequer temos escolas de patinagem para entreter os miúdos... e é muito difícil ir buscar os miúdos a várias aldeias e escolas, e levá-los para o rinque de patinagem! Muitos dos miúdos que temos neste momento, chegaram até nós através de amigos do clube, e é desta forma que conseguimos ter jogadores mais novos.

No sul, eles costumavam fazer um trabalho espectacular; Costumavam ter até mais clubes do que o que têm agora. O Herne Bay United é o maior clube de Inglaterra, e vai ser sempre o melhor clube, pois eles têm um pavilhão próprio e excelentes condições de trabalho. O problema deles é que em Herne Bay há três clubes, mas os melhores jogadores vão para o United, e isso faz com que os outros dois clubes sofram. O maior problema do sul do país é que não há uma liga regional. Acho que se eles não conseguirem ter mais clubes, Herne Bay vai ser sempre um “motor” do hóquei em patins do sul do país, mas o resto da região vai sofrer, e mesmo os jogadores de Herne Bay vão sofrer, porque vão deixar de jogar o suficiente.

No norte, eles têm as suas próprias ligas regionais, mas só têm uma divisão por cada escalão etário, pois só têm cinco clubes. Eu diria que o Middlesborough e o Manchester são os melhores clubes a trabalhar com os mais novos. O Sheffield também é um grande clube. Nos anos oitenta, o norte tinha um maior número de clubes, mas os melhores jogadores mudaram-se para os 2 ou 3 melhores clubes, porque esses tinham os seus rinques próprios. O problema foi que esses jogadores abandonaram os seus pequenos clubes, e isso prejudicou seriamente a liga regional.

MH: Como está o hóquei a nível nacional?
DP:
Eu acho que a NRHA e, de facto, todos nós, temos de continuar a trabalhar nas bases. Acho que os maiores clubes têm de continuar a apostar no trabalho junto dos sub-9 e sub-11, de modo a continuarem a ter jogadores para as equipas mais velhas. Infelizmente, só há uns 4 ou 5 clubes que tentam desenvolver as equipas mais novas...

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